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A Daiso cobra 300 ienes sem apagar os 100 da placa

Hirotake Yano pôs um preço único na porta em 1972. Em 2021, a rede abriu outra porta, com peças a 300 ienes e o número antigo intacto.

Fachada de loja Daiso no Japão com a placa de 100 ienes acesa.

O preço que nunca saiu da fachada

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Aos 29 anos, o vendedor ambulante Hirotake Yano estacionou o caminhão numa feira improvisada de Hiroshima, em 1972, e começou a descarregar caixas de panelas, pentes e sabonetes comprados de fábricas que queriam se livrar do estoque.

Yano não tinha loja. Tinha a carroceria, uma lona estendida no chão e uma fila de clientes que pegavam cada peça e perguntavam quanto custava.

Cada pergunta pedia uma resposta diferente, porque cada lote vinha de um fornecedor e de um custo. Ele consultava as notas, fazia a conta de cabeça e respondia, enquanto a fila crescia atrás.

Numa tarde de movimento forte, segundo a história que a própria empresa conta até hoje, Yano desistiu da conta. Anunciou que tudo ali custava 100 ienes e seguiu vendendo.

Na época, 100 ienes pagavam uma passagem curta de ônibus ou um lanche de padaria. Era uma moeda que qualquer pessoa tinha no bolso, e a frase cabia num grito por cima do barulho da feira.

A frase resolveu a fila na hora. O cliente não precisava perguntar nada; bastava escolher a peça e entregar a moeda.

Resolveu também um problema que Yano ainda não tinha enxergado. O preço único virou o motivo da visita: as pessoas vinham ao caminhão para descobrir o que 100 ienes compravam naquela semana.

Em 1977, ele registrou a Daiso Sangyo (algo como “Grande Criação Indústria”). Em 1991, abriu a primeira loja fixa da rede, em Takamatsu, na ilha de Shikoku, com o preço pintado na fachada.

O número na porta trazia um risco que crescia com os anos. Todo produto precisava caber em 100 ienes, e o que não cabia ficava de fora, por melhor que fosse. Uma toalha mais grossa, uma faca de aço melhor ou uma caneca de cerâmica fina esbarravam no mesmo teto.

Três décadas depois, a rede achou um jeito de vender mais caro sem apagar a placa. A explicação começa pela conta que faz uma loja de preço fixo dar lucro.

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I  O Prêmio de Marca

A moeda que dispensa a etiqueta

A Daiso trabalha com uma conta que parece errada à primeira vista. Alguns itens deixam margem quase nula, outros deixam bastante, e o cliente não sabe qual é qual.

A média fecha porque ninguém entra numa loja de 100 ienes para levar uma peça só. A cesta enche porque cada item, sozinho, parece não pesar no bolso.

Aqui entra o prêmio de marca (o valor que o cliente concede a um nome em que confia). Na Daiso, o prêmio não aparece no preço, que é fixo. Aparece na quantidade e na frequência: o cliente volta sem lista, só para ver o que chegou.

O preço único tira do cliente a pergunta “quanto vale?” e deixa só a pergunta “eu quero?”.

O preço fixo também muda o trabalho do comprador da empresa. Numa loja comum, ele acha o produto e depois calcula a etiqueta. Na Daiso, a etiqueta vem primeiro, e o comprador volta à fábrica para desenhar o produto que cabe nela.

Por essa razão, a rede passou a criar a maior parte do que vende. Yano encomendava lotes enormes, que derrubavam o custo por peça, e fábricas na China, no Vietnã e em outros países da Ásia montaram linhas inteiras só para a Daiso.

O número sobreviveu até a uma mudança de lei. Em 1989, o Japão criou o imposto sobre consumo (o tributo cobrado no caixa sobre cada venda), hoje em 10%, e o item de 100 ienes passou a sair por 110 no caixa.

Desde 2021, a regra japonesa de exibição de preços exige que a etiqueta mostre o valor com imposto. A Daiso passou a imprimir os dois números lado a lado, com o 100 em destaque e o 110 logo abaixo.

O número que trabalha sozinho

O número na fachada faz o serviço de três funcionários. Dispensa a leitura de etiqueta por etiqueta, dispensa a pergunta no caixa e dispensa a comparação com a loja da esquina.

Quem vê a placa entende a regra antes de entrar. Uma criança com uma moeda no bolso sabe o que pode levar para casa.

Por essa razão, o número virou o ativo que a Daiso não podia arriscar. Mexer nele mexeria no motivo da visita, e o motivo da visita sustentava a cesta cheia.

Em 2018, Yano deixou a presidência para o filho, Seiya Yano. O sucessor herdou uma rede espalhada pelo Japão e por dezenas de países, e um problema que a placa não resolvia: os custos de fábrica subiam, e o 100 continuava parado.

 
 

II  O Movimento

A loja de 300 ienes na porta ao lado

O movimento que resolveu o impasse saiu em 2021, em Shibuya, bairro comercial de Tóquio. A empresa abriu a primeira loja da Standard Products by Daiso, uma rede nova em que a maior parte das peças custa 300 ienes.

A Standard Products vende utensílios de cozinha, toalhas, cadernos e objetos de casa com desenho simples, cores neutras e materiais melhores. Parte da linha é produzida no próprio Japão, com fábricas tradicionais de regiões conhecidas por um ofício, como facas e cerâmica.

A fachada não repete o logotipo vermelho da Daiso. A loja tem identidade própria, letreiro discreto e um salão que lembra mais uma loja de design do que um bazar de achados.

A empresa já tinha testado a lógica antes, com a THREEPPY, outra bandeira de peças a 300 ienes voltada a decoração e acessórios. A Standard Products aplicou a mesma conta aos objetos de uso diário, que o cliente compra toda semana.

O movimento da marca seguiu três passos.

1. Manter o número antigo na porta antiga. As lojas Daiso continuaram com o 100 na placa, e nenhum cliente fiel encontrou a promessa trocada.

2. Abrir outra porta com outro número. O produto que não cabia em 100 ienes ganhou uma loja onde 300 é a regra, e o cliente entende essa regra também de primeira.

3. Pôr as duas portas lado a lado. Muitas unidades novas reúnem Daiso, Standard Products e THREEPPY no mesmo endereço, com fachadas separadas e caixas que atendem as três.

A Daiso não subiu o preço da loja: abriu outra loja, com outro número pintado na placa.

O arranjo deixa o cliente subir de faixa sem sentir que foi enganado. Ele entra pela porta do 100, vê ao lado uma toalha melhor por 300 e decide sozinho se quer pagar a diferença.

O número único continua fazendo o serviço nas duas lojas. Na Standard Products, o comprador também parte da etiqueta, só que com uma margem três vezes maior para desenhar o produto.

A empresa não publica quanto a Standard Products fatura separada da rede principal, nem quanto da venda dela veio de clientes que antes compravam só na Daiso. O que se vê na rua é a expansão: a bandeira saiu de Shibuya e abriu lojas em outras cidades japonesas e fora do país.

 

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III  O Erro de Marca

As etiquetas de 500 ienes na loja do 100

O erro: encher a loja que prometia 100 ienes de etiquetas com outros números.

O que custa: o cliente perde a certeza que o fazia pôr peças na cesta sem pensar.

O que fica: cada faixa de preço ganhou a sua própria fachada.

Ao longo dos anos 2000 e 2010, a Daiso foi colocando nas próprias prateleiras itens de 200, 300, 500 e até 1.000 ienes. Fones de ouvido, louças maiores e eletrônicos pequenos ganharam etiquetas coloridas, misturados aos itens de 100.

A lógica parecia boa no papel. O cliente já estava dentro da loja, com a cesta na mão, e um produto melhor a poucos passos aumentaria o valor da compra.

A conta falhou na cabeça do cliente. Quem entrava confiando na placa passou a conferir etiqueta por etiqueta, e a pergunta “quanto vale?”, que o preço único tinha apagado, voltou ao corredor.

O tropeço apareceu também fora do Japão. Nas lojas dos Estados Unidos, os itens básicos não saem por um dólar, e cada produto traz preço próprio, o que deixou a rede americana sem a frase simples que lotava o caminhão de Yano em Hiroshima.

A Daiso não divulga quanto perdeu com a mistura de faixas, e não existe estudo público que meça o efeito no Japão. O que a empresa mostrou foi a correção: tirar parte das faixas maiores do salão do 100 e dar a elas um nome e uma porta.

A limpeza ficou incompleta. Itens acima de 100 ienes seguem à venda nas lojas da bandeira principal, com etiqueta destacada, porque parte do público procura ali mesmo o produto um pouco melhor.

Três perguntas antes de mexer no número da porta

O caso deixa um roteiro para qualquer marca que prometeu um número e precisa crescer além dele.

1. O cliente antigo vai encontrar a promessa onde a deixou?

2. A faixa nova tem nome, fachada e regra próprios, que o cliente entende sem perguntar?

3. Quem quiser subir de faixa decide sozinho, ou descobre a diferença no caixa?

A prateleira mista falhava nas três. A Standard Products passa nas três, e a placa da Daiso pôde ficar parada.

“Que número a sua marca prometeu na porta, e quanto ainda cabe dentro dele?”

100 ienes. É o número que segue na fachada das lojas Daiso no Japão desde 1991, com 110 ienes na etiqueta depois do imposto, segundo as etiquetas da própria rede.

 
 

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Em que ano e em qual bairro a Daiso abriu a primeira loja da Standard Products, com peças a 300 ienes?

A2018, em Takamatsu
B1991, em Hiroshima
C2021, em Shibuya
D1972, em Tóquio

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