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A estrela que a Gol comprou por 320 milhões e depois recolheu
Fundada em Porto Alegre em 1927, a Varig foi vendida à Gol em 2007, voou mais alguns anos em rotas internacionais e saiu do céu brasileiro.
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A estrela na cauda, vista da pista
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O aviador alemão Otto Ernst Meyer, veterano da aviação militar da Primeira Guerra, desembarcou no Rio Grande do Sul e fundou a Varig em 7 de maio de 1927, com dinheiro levantado entre comerciantes de Porto Alegre. A companhia começou com um hidroavião Dornier Wal batizado de Atlântico e uma linha curta sobre a Lagoa dos Patos, ligando a capital gaúcha a Rio Grande. Era a primeira empresa aérea brasileira a sair do papel e a durar.
Oito décadas depois, a mesma companhia entregou o próprio nome dentro de um contrato de compra e venda. Em março de 2007, a Gol Linhas Aéreas anunciou a aquisição da VRG Linhas Aéreas, a operadora criada no ano anterior para tocar a Varig depois do leilão judicial, por algo perto de 320 milhões de dólares. A compradora tinha seis anos de vida. A comprada tinha oitenta.
O ativo que trocou de mãos não era frota. Aviões se alugam, se devolvem e se trocam de fabricante em dezoito meses. O que a Gol levou foram autorizações de voo internacional, horários de pouso em aeroportos cheios, o programa de fidelidade Smiles e a palavra Varig pintada na cauda, aquela estrela que o brasileiro reconhecia sem ler a fuselagem.
O caminho até aquela mesa foi longo e público. A companhia gaúcha entrou em recuperação judicial em junho de 2005, sob a lei de falências recém-aprovada, viu a frota encolher de dezenas para poucas unidades, atrasou salário, cancelou voo com passageiro no saguão e teve a operação arrematada em leilão judicial em julho de 2006 por cerca de 24 milhões de dólares. Oito meses depois, o mesmo negócio foi revendido à Gol por treze vezes o valor do leilão.
A decisão seguinte durou pouco e ninguém anunciou com alarde. A Gol manteve a pintura da Varig em voos internacionais, usou a bandeira herdada para abrir mercados fora do país e, aos poucos, foi trocando cauda por cauda. A estrela sumiu da pista sem cerimônia de despedida, sem nota longa, sem última decolagem simbólica.
A primeira seção mede o que havia dentro daquela estrela no dia da assinatura.
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I O Prêmio de Marca
O que a estrela valia quando a Gol assinou
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A conta mais fácil de uma marca aérea começa na autorização de voo. A Varig operou por décadas como bandeira oficial do Brasil no exterior, com rotas para Nova York, Lisboa, Frankfurt, Tóquio e Buenos Aires concedidas num regime em que o governo distribuía linhas internacionais a poucas empresas. Cada rota dessas é um contrato entre países, não um itinerário que qualquer companhia desenha na planilha.
O segundo item do inventário é o horário de pouso. Aeroporto saturado trabalha com faixas de tempo distribuídas por histórico de uso, e quem chegou primeiro segura a faixa boa. Congonhas e Galeão tinham faixas da Varig em horários que uma empresa nova jamais conseguiria comprar no balcão, porque a fila não aceita dinheiro, aceita antiguidade.
O terceiro item é o que menos aparece em reportagem e mais aparece em balanço: o Smiles, programa de fidelidade lançado pela Varig em 1994, o primeiro do gênero no Brasil. Passageiro que acumula milhas em uma companhia volta a ela mesmo quando o concorrente cobra menos, porque trocar de empresa significa abandonar saldo já guardado.
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Frota se aluga em três meses. Autorização internacional, faixa de horário e milha acumulada levam décadas, e é por isso que companhia quebrada continua valendo dinheiro.
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O quarto item é reputação de serviço. A Varig construiu fama de bordo caprichado numa época em que voar era caro e raro, e o passageiro brasileiro guardou a lembrança do serviço como se fosse patrimônio nacional. Memória assim se converte em preferência, e preferência se converte em preço mais alto pela mesma poltrona.
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"Uma marca é um nome que influencia compradores."
Jean-Noël Kapferer, The New Strategic Brand Management, 2008
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O professor francês Jean-Noël Kapferer reduz a marca ao efeito prático dela sobre a decisão de compra. Pela definição, a Varig de 2007 ainda influenciava: passageiro que hesitava entre duas tarifas parecidas escolhia a cauda conhecida. A companhia estava em recuperação judicial desde junho de 2005, tinha dívida impagável e frota encolhida, e mesmo assim o nome continuava puxando escolha na hora da compra.
A quinta parte do prêmio é a mais estranha de contabilizar. A Gol nasceu em 2001 vendendo passagem barata, sem refeição quente e sem pompa, e carregava reputação de empresa popular. Comprar a Varig deu à companhia jovem uma segunda identidade, mais formal, capaz de conversar com o passageiro corporativo e com o parceiro estrangeiro que nunca tinha ouvido falar da compradora.
A lição cabe em uma frase de mesa de negociação. Quando uma empresa em ruína ainda vale centenas de milhões, o que está à venda não é a operação, é a permissão acumulada de voar, cobrar e ser reconhecida.
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II O Movimento
Comprar a bandeira e usá-la como passaporte
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A operação de 2007 teve quatro movimentos encadeados, e cada um resolveu uma limitação que a Gol carregava desde a fundação.
1. Comprar autorização, e não construir. Conseguir direitos de voo para Europa, Estados Unidos e Ásia exige negociação entre governos, prazo longo e reciprocidade. Pagar pela VRG entregou o conjunto pronto num único contrato, com a assinatura de um juiz de recuperação judicial no caminho.
2. Herdar o Smiles. O programa de fidelidade veio junto e virou peça central da companhia compradora. A Gol manteve o Smiles vivo, separou a atividade em empresa própria e levou o negócio à bolsa brasileira em 2013, transformando um ativo de marca em papel negociado.
3. Pintar a estrela na rota internacional. Nos primeiros anos, o voo de longa distância saiu com a marca Varig, e o doméstico barato seguiu com a marca Gol. Duas etiquetas, dois públicos, uma operação única por trás.
4. Absorver a operação. Frota, tripulação, manutenção e sistema de reserva foram sendo unificados, até a empresa comprada deixar de existir como companhia separada e virar linha do organograma da compradora.
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O movimento decisivo é o segundo. A Gol pagou por uma companhia aérea e descobriu que o pedaço mais durável do pacote era um programa de milhas, que continua rendendo depois que o último avião pintado saiu de circulação.
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A ordem importa mais que o cheque. Comprar a bandeira sem o programa de fidelidade teria entregue rotas sem freguês cativo; herdar o programa sem a bandeira teria deixado a companhia jovem batendo na porta de parceiros estrangeiros sem credencial; unificar a operação cedo demais teria queimado a credencial antes de ela abrir as portas.
A parte cultural foi tratada como detalhe operacional, e cobrou preço depois. A Varig pertenceu desde 1945 à Fundação Ruben Berta, estrutura em que os próprios funcionários figuravam como donos, arranjo raro no capitalismo brasileiro. Quem trabalhou lá tratava a empresa como causa, e essa energia não entrou no contrato de compra, porque contrato de compra não tem campo para ela.
O acerto da compradora apareceu na velocidade. Em poucos anos a Gol saiu de companhia doméstica de tarifa baixa para operadora com presença internacional e programa de fidelidade próprio, um salto que uma empresa construindo tudo sozinha levaria uma década para dar, com regulação e acordo bilateral atravessando o caminho.
Para qualquer comprador de marca antiga hoje, o movimento a copiar continua sendo o terceiro. Rodar as duas etiquetas em paralelo, cada uma no público que ela atende melhor, custa pouco e compra tempo para descobrir qual delas o mercado realmente quer pagar.
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