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O erro: a Coca-Cola tratou a bebida como um produto de sabor e a marca como a embalagem em volta dele. O que estava na mesa não era qual líquido agradava mais no copo, era quem tinha o direito de decidir o que ia dentro da lata.
A conta: o cliente não foi consultado sobre a troca, ele foi informado. Marca velha é bem de uso comum na cabeça de quem compra, e mexer nela sem aviso soa como decisão tomada por cima, não como melhoria de produto.
O que ficou: a reação chegou pelo telefone. A central de atendimento em Atlanta, que recebia algumas centenas de ligações por dia, passou de 8 mil ligações diárias no pico, e a empresa contabilizou mais de 400 mil ligações e cartas ao longo de 1985.
O protesto se organizou fora da empresa. Um grupo de consumidores em Seattle montou uma associação de bebedores da fórmula antiga, com linha telefônica própria, camiseta, abaixo-assinado e presença em audiência pública no Congresso americano.
Gente estocou caixa em garagem. O produto antigo saiu de linha, o estoque das lojas foi virando lembrança e a caixa fechada da receita original começou a ser revendida por várias vezes o preço de gôndola em poucas semanas.
Em 11 de julho de 1985 a empresa recuou. A volta da receita original foi anunciada com o nome de Coca-Cola Classic, e uma rede de televisão americana interrompeu a novela da tarde pra dar a notícia. Entre o anúncio da troca e o recuo passaram 79 dias.
O presidente da companhia resumiu a lição na própria coletiva. Ele disse que todo o tempo, o dinheiro e a técnica investidos na pesquisa não conseguiram medir o vínculo emocional profundo que tanta gente mantinha com a Coca-Cola original.
O desfecho comercial acabou favorável, e meio por acidente. Com as duas versões na prateleira, a Classic disparou, a nova encolheu pra uma fatia pequena e a empresa fechou 1985 retomando a dianteira sobre a concorrente, com mais espaço de gôndola do que tinha antes.
A régua serve pra qualquer marca com idade. Pesquisa mede o produto, e produto é a parte da marca que a empresa controla sozinha. A outra parte mora na cabeça de quem compra, e ela não aparece em copo sem rótulo.
Na sua casa a mesma conta está aberta em vários pacotes. O sabonete que trocou o perfume, o biscoito que mudou o recheio, o aplicativo que redesenhou o botão de sempre: cada um passou por um teste que perguntou do gosto e esqueceu de perguntar do dono.
A pesquisa mediu o gole. O dono da marca era o cliente, e ele não estava na amostra.
"Que marca você defenderia se ela trocasse a fórmula amanhã sem avisar ninguém?"
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