|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
A Nike desligou a própria loja dentro da Amazon
Em novembro de 2019 a companhia encerrou o piloto de venda direta aberto em 2017 e devolveu ao aplicativo próprio a decisão de preço e de vitrine.
|
O tênis que saiu da vitrine alugada
|
| ▼ |
| |
|
Aos 61 anos, o designer de calçados Mark Parker, presidente da Nike desde 2006, confirmou em 29 de junho de 2017, na teleconferência de resultados do quarto trimestre fiscal, que a companhia passaria a vender um sortimento limitado de produtos diretamente na Amazon, num piloto fechado com a área de varejo da plataforma.
A troca combinada tinha duas pontas. A Nike entregava produto oficial, com foto, descrição e garantia sob controle da própria marca. A Amazon se comprometia a apertar o cerco sobre vendedor não autorizado e sobre a mercadoria falsificada que ocupava a busca por tênis dentro do site havia anos.
Quem digitava o nome da marca na caixa de busca via o resultado montado por um mecanismo de ordenação que a Nike não escrevia. Na mesma tela apareciam a caixa de preço, a sugestão de item semelhante de outra fabricante e o anúncio patrocinado de quem tinha pago para estar ali. O tênis ficava disponível para compra e ficava também cercado.
Em 13 de novembro de 2019, a companhia divulgou um comunicado curto: encerrava o piloto com a Amazon Retail para concentrar esforço em relações mais diretas e pessoais com o consumidor, e seguiria investindo em parcerias específicas com outros varejistas e plataformas. Nenhum número foi divulgado junto, nenhum executivo deu entrevista para detalhar a conta.
A decisão saiu no meio de uma virada maior. Desde junho de 2017 a Nike operava um plano interno chamado Consumer Direct Offense, que reorganizou a empresa em torno da venda pelo próprio canal, do aplicativo SNKRS e da loja física operada pela marca. Sair da maior vitrine de comércio eletrônico do mundo era coerente com aquele plano e continuava soando como abrir mão de faturamento fácil.
O que a Nike protegia com a saída não era a receita do trimestre. Era um ativo que ela vinha construindo desde 1971 e que nenhuma listagem em marketplace consegue devolver depois de gasto.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Prêmio de Marca
A vitrine que a marca desenha sozinha
|
|
Em 1971, uma estudante de design gráfico da Portland State University chamada Carolyn Davidson entregou a Phil Knight um desenho de risco curvo cobrando 2 dólares por hora de trabalho. A fatura fechou em 35 dólares. O símbolo entrou na lateral do primeiro tênis da nova marca no mesmo ano.
Knight relatou em Shoe Dog, publicado em 2016, a própria reação diante do desenho: não amou, achou que ele cresceria com o tempo. Cresceu. Cinquenta e poucos anos depois, aquele risco identifica produto em qualquer prateleira do mundo sem uma palavra escrita ao lado.
|
"Não amei. Mas talvez ele cresça em mim."
Phil Knight, Shoe Dog, 2016
|
O prêmio que uma marca desse porte acumula não é o símbolo em si. É o direito de decidir três coisas que o varejista de terceiro decide no lugar dela quando o produto entra numa prateleira alugada:
| • | Onde o produto aparece: ao lado de qual item, em qual ordem da lista, com qual foto e qual texto |
| • | Por quanto ele aparece: preço cheio, preço de campanha, ou preço rebaixado por um algoritmo de reajuste automático |
| • | Quem fala com o comprador depois da venda: quem tem o email, o histórico de tamanho e o motivo da devolução |
Dentro de um marketplace, as três respostas pertencem à plataforma. O tênis vira uma linha de catálogo com nota, prazo de entrega e caixa de comparação, comparado por atributo com qualquer outro tênis da mesma faixa de preço.
Dentro do aplicativo próprio, as três respostas pertencem à marca. O aplicativo SNKRS, lançado pela Nike em 2015, organiza lançamento por horário anunciado, quantidade limitada e sorteio de acesso, e transforma a compra num evento com data marcada em vez de uma busca por menor preço.
O número que mede esse direito aparece no balanço da própria companhia. A Nike reportou 11,8 bilhões de dólares de receita no canal direto no ano fiscal de 2019 e 21,3 bilhões no ano fiscal de 2023, segundo os relatórios anuais da empresa.
O canal direto entrega margem bruta maior por par vendido, e entrega uma segunda coisa que não cabe em linha de receita: o dado de quem comprou. Tamanho, frequência, modelo preferido, cidade. Esse arquivo é o que permite lançar o próximo produto sabendo para quem avisar primeiro.
O piloto na Amazon colocava parte desse ativo sob administração alheia. A questão que a companhia respondeu em 2019 foi quanto do prêmio ela estava disposta a terceirizar em troca de volume, e a resposta veio na forma de um comunicado de poucas linhas.
|
|
|
|
|
II O Movimento
O aplicativo no lugar da prateleira alugada
|
|
A Nike aceitou trocar uma vitrine com centenas de milhões de visitantes por uma vitrine que ela mesma controla, e comunicou a troca em 13 de novembro de 2019, dois anos e cinco meses depois de abrir o piloto na Amazon Retail.
|
A empresa não saiu do comércio eletrônico. Saiu da posição de fornecedora dentro da loja de outra companhia, e passou a operar a venda pelo site nike.com, pelo aplicativo Nike, pelo SNKRS e pelas lojas próprias, os quatro pontos que o plano Consumer Direct Offense tinha colocado no centro desde junho de 2017.
A operação exigiu construir o que o marketplace já entregava pronto. Centro de distribuição próprio, prazo de entrega competitivo, política de devolução, atendimento, programa de cadastro de membro e time de tecnologia para manter o aplicativo de pé em dia de lançamento com fila.
Quatro peças sustentaram a mudança:
| 1 | O cadastro de membro. Quem cria conta informa tamanho, esporte praticado e cidade, e passa a receber aviso de lançamento antes do público geral. O acesso antecipado é o pagamento pelo cadastro. |
| 2 | O calendário de lançamento no SNKRS. Data e hora anunciadas com antecedência, estoque limitado, sorteio entre quem entrou no horário. A dificuldade de comprar faz parte do produto vendido. |
| 3 | A loja física operada pela marca. Vitrine, atendimento, provador e devolução acontecem sob a mesma direção que desenha o produto, sem intermediário decidindo o desconto da semana. |
| 4 | O controle de preço na origem. Sem caixa de comparação automática e sem vendedor terceiro rebaixando o mesmo modelo, a etiqueta anunciada é a etiqueta praticada. |
A conta tem outro lado, e ele apareceu depois. Ao reduzir presença em varejistas parceiros para privilegiar o canal próprio, a Nike abriu espaço de prateleira em loja multimarca para concorrentes menores, e a partir de 2023 a companhia voltou publicamente a reforçar a relação com esses varejistas.
Em junho de 2025, na teleconferência de resultados, a Nike anunciou que voltaria a vender na Amazon, sob a gestão do presidente Elliott Hill, que assumiu o cargo em outubro de 2024. O retorno chegou com a marca já operando um canal direto de porte muito maior do que o de 2017.
O período entre a saída e a volta funcionou como um investimento com prazo definido. A companhia gastou cinco anos e meio construindo estrutura própria de venda, e só reabriu a porta do marketplace quando o canal que ela controla tinha virado a maior fonte de receita direta da sua história.
|
|
|