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O erro: a Nespresso passou a tratar a patente como se fosse a marca. O prêmio de preço foi construído em cima de um direito com data de validade, e não em cima de uma preferência que o cliente pagaria mesmo tendo a alternativa ao lado.
A conta: manter margem por exclusividade jurídica custa advogado, processo e vigilância permanente, e o gasto não constrói nada que sobreviva ao vencimento. Cada real gasto em liminar é um real que não virou motivo pra pagar mais caro.
O que ficou: em abril de 2010 a Sara Lee lançou na França cápsulas compatíveis com a máquina Nespresso, e a Ethical Coffee Company colocou no mesmo mercado uma cápsula biodegradável, vendida nas lojas da rede Casino.
O detalhe da segunda concorrente pesa mais. A Ethical Coffee Company foi fundada por Jean-Paul Gaillard, o executivo que tinha desenhado o modelo fechado da Nespresso vinte anos antes, e ele conhecia cada peça do arranjo por dentro.
A Nestlé foi pro tribunal em vários países e perdeu onde importava. Na Suíça, a liminar que barrava a cápsula vendida pela rede Denner caiu em março de 2011, e a disputa seguiu subindo de instância.
O golpe mais duro veio pelo formato. O Tribunal Federal suíço decidiu que o desenho da cápsula é ditado por necessidade técnica, não por escolha criativa, e por essa razão não pode ser protegido como marca tridimensional.
As patentes centrais do sistema venceram em 2012. A partir dali, prensar 5 gramas de café no formato que entra na máquina virou operação legal pra qualquer torrefação com uma linha de embalagem instalada.
Em setembro de 2014 a autoridade de concorrência francesa fechou o cerco pelo outro lado. Por sete anos a Nespresso teria que avisar os concorrentes com três meses de antecedência sobre mudança técnica na máquina e honrar a garantia mesmo com cápsula de outra marca dentro.
O resultado chegou ao supermercado brasileiro em caixa de papelão. Cápsulas compatíveis da 3 Corações aparecem na gôndola por volta de 15 reais a caixa com dez, na mesma seção do café moído.
A dose de 5 gramas ganhou vizinha, e a comparação que não existia passou a acontecer na frente do cliente, sem calculadora, dentro do mesmo metro quadrado de loja.
A resposta da Nespresso foi construir outro cadeado. Em 2014 nasceu a linha Vertuo, com código de barras impresso na borda da cápsula e leitura ótica dentro da máquina, protegida por patentes novas que empurram o vencimento pra perto de 2030.
A escolha é reveladora. Diante da primeira concorrência de preço em quase três décadas, a empresa preferiu refazer a trava a testar quanto o cliente pagaria a mais pela marca.
A régua vale pra qualquer negócio que cobra prêmio. Se o preço se apoia em patente, contrato de exclusividade ou trava técnica, o vencimento está no processo, não no cliente.
Preferência de marca não vence em nenhuma data. Ela precisa ser reconstruída todo mês, com produto que o cliente escolhe de olhos fechados e um motivo visível pro preço maior quando a alternativa aparece ao lado.
"Se qualquer concorrente pudesse copiar o seu produto sem processo nenhum, quanto do seu preço continuaria de pé?"
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