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A Perdigão que sumiu de parte da gôndola

O CADE aprovou a fusão com a Sadia em julho de 2011 e suspendeu a marca Perdigão em várias categorias, por prazos de três a cinco anos.

Geladeira de supermercado com a marca Perdigão ausente de parte das prateleiras.

A marca fora de parte da prateleira

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Na tarde de 13 de julho de 2011, o conselheiro-relator Carlos Ragazzo apresentou ao plenário do CADE, em Brasília, o voto sobre a união entre Sadia e Perdigão e leu a condição que o mercado não tinha previsto: a empresa combinada podia existir, e a marca Perdigão teria que sair de parte da gôndola por um tempo determinado.

A operação havia sido anunciada em 19 de maio de 2009, quando a Perdigão incorporou a Sadia e as duas passaram a operar sob o nome BRF Brasil Foods. Juntas, elas dominavam categorias inteiras do supermercado brasileiro, com duas das marcas de alimento mais reconhecidas do país disputando o mesmo espaço de prateleira havia décadas.

O acordo assinado naquele dia, o Termo de Compromisso de Desempenho, tinha duas pernas. A primeira era física: a BRF se comprometeu a vender um pacote de fábricas, centros de distribuição, granjas e um conjunto de marcas menores, entre elas Rezende, Wilson, Texas, Tekitos, Confiança, Doriana e Delicata. O comprador apareceu no ano seguinte, e foi o Marfrig.

A segunda perna era mais estranha, e é ela que interessa a quem trabalha com marca. A BRF continuou dona da Perdigão. Ninguém vendeu o nome, ninguém arquivou o registro, ninguém apagou o logotipo. O que o acordo fez foi proibir o uso daquele nome em categorias específicas de produto, por prazos que iam de três a cinco anos conforme o segmento, enquanto a mesma empresa seguia usando a Perdigão normalmente em tudo que ficou de fora da lista.

A consequência prática dessa engenharia caiu no colo da área comercial da BRF no dia seguinte. Cada quilo de presunto, salsicha, linguiça, empanado, margarina e prato pronto que a Perdigão vendia precisava continuar existindo debaixo de outro nome, ou seria entregue de bandeja ao concorrente que estivesse ao lado na mesma prateleira.

Antes de entender o que a BRF fez com esse volume, vale medir o que exatamente ela tinha em mãos quando o nome Perdigão foi suspenso.

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A Perdigão nasceu em 1934, em Videira, no oeste de Santa Catarina, no armazém das famílias Ponzoni e Brandalise, imigrantes italianos que vendiam secos e molhados e começaram a abater suínos para aproveitar a produção da região. O nome virou marca registrada no fim daquela década e passou o século seguinte dentro da casa do brasileiro.

Marca de alimento acumula um tipo de valor que não aparece no balanço com nome próprio. Ele se forma na repetição: a mãe comprava, a filha compra, e a mão vai ao mesmo ponto da geladeira do mercado sem que o dono da mão precise ler o rótulo inteiro.

Os marcos da operação cabem em três datas:

I  O Prêmio de Marca

O que uma marca de gôndola acumula

•

Ano em que as famílias Ponzoni e Brandalise abriram o negócio em Videira, Santa Catarina: 1934

•

Data do anúncio da união entre Perdigão e Sadia, que criou a BRF Brasil Foods: 19 de maio de 2009

•

Data da aprovação com restrições no plenário do CADE, com a assinatura do Termo de Compromisso de Desempenho: 13 de julho de 2011

O primeiro componente do valor é o espaço negociado no varejo. Metro linear de geladeira em rede grande não se compra por decreto, se conquista com giro comprovado, e uma marca que gira todo dia entra na negociação anual do supermercado numa posição que uma marca nova levaria anos para ocupar.

O segundo é a memória de preço. O cliente que compra presunto Perdigão há vinte anos sabe, sem consultar, quanto aquele pacote costuma custar. Ele reconhece promoção sem ler cartaz e reconhece aumento sem calculadora, e essa referência é o que permite à marca sustentar uma faixa acima da mais barata da prateleira.

O terceiro é a autorização para entrar em categoria nova. Uma marca de frango que aparece na margarina começa com crédito de confiança emprestado do congelador. Foi assim que a Perdigão saiu do abate e chegou a presunto, lasanha, pizza e empanado sem precisar reapresentar o nome ao consumidor.

"Brand equity é um conjunto de ativos e passivos ligados a uma marca, ao seu nome e ao seu símbolo, que somam ou subtraem valor ao produto."

> > David A. Aaker, Managing Brand Equity, 1991

A definição do autor ajuda a enxergar o tamanho do que o acordo do CADE congelou. O que ficou suspenso não foi uma fábrica nem uma receita, foi o conjunto de atalhos mentais que a Perdigão tinha construído em cada uma das categorias listadas.

E aqui aparece a particularidade do caso. A suspensão foi cirúrgica: valia para categorias nomeadas uma a uma, com prazo próprio para cada grupo, enquanto a mesma marca seguia estampada em outros produtos da mesma empresa, no mesmo corredor, no mesmo dia.

 
 

II  O Movimento

A marca guardada por categoria

A BRF não perdeu a Perdigão: ficou proibida de usá-la em categorias específicas, por prazos escalonados de três a cinco anos, e teve que transferir o volume dessas categorias para outras marcas do próprio portfólio enquanto o relógio corria.

A escolha do regulador tem uma lógica de mercado por trás. Retirar a marca líder de uma categoria concentrada abre espaço de prateleira real para quem estava atrás, sem obrigar o vendedor a se desfazer do ativo para sempre. Passado o prazo, a marca volta e disputa de novo, com a concorrência já instalada no espaço que ela deixou.

Para a empresa, a conta é imediata. Volume não espera prazo regulatório. Cada quilo que a Perdigão deixava de vender numa categoria suspensa precisava reaparecer sob outro nome no mesmo mês, no mesmo cliente, na mesma negociação com o varejo.

A migração seguiu quatro movimentos:

1

As categorias suspensas foram separadas das liberadas, e cada linha de produto ganhou um destino de marca definido antes do fim do estoque em trânsito, para que nenhum item saísse da prateleira sem substituto.

2

O volume das categorias industrializadas foi transferido para a Sadia, marca que a mesma empresa já detinha, com força equivalente e sem restrição de uso naquelas linhas.

3

A margarina migrou para a Qualy, marca que já liderava a categoria e que absorveu o espaço sem precisar de reapresentação ao consumidor.

4

O pacote de ativos e de marcas menores previsto no acordo foi vendido ao Marfrig, em operação fechada em 2012, o que criou um concorrente abastecido de fábricas e de portfólio para ocupar parte do espaço aberto.

O detalhe operacional que separa esse caso de uma retirada simples é a convivência. Enquanto o presunto Perdigão saía da geladeira, o frango Perdigão continuava na mesma loja. O consumidor via a marca viva num ponto do supermercado e ausente em outro, sem nenhuma explicação disponível na embalagem.

Ter a segunda marca pronta foi o que tornou a operação viável. A empresa que compra uma concorrente para virar líder costuma discutir qual das duas marcas sobrevive; nesse caso, foi a existência das duas, com força parecida, que permitiu cumprir a decisão do CADE sem entregar categoria inteira ao rival.

A lição de ofício está na arquitetura do portfólio, montada anos antes do acordo. Marca única concentra investimento e simplifica a operação, e cobra o preço no dia em que aquele nome fica indisponível, por decisão judicial, por crise sanitária, por contrato de licença vencido ou por briga societária.

 

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III  O Erro de Marca

Confundir marca com fatia de mercado

O erro: tratar a volta da marca como recuperação automática da posição, assumindo que o nome retorna à categoria encontrando a mesma prateleira, o mesmo espaço negociado e o mesmo hábito de compra que tinha no dia em que saiu.

O que custa: o espaço da gôndola foi redistribuído entre quem ficou, o comprador do supermercado montou seu mix sem aquele item e o consumidor formou hábito novo comprando outra embalagem. A marca volta com reconhecimento intacto e com giro comprovado zerado, e giro é o que o varejo usa para decidir metro linear.

O que fica: a empresa precisa comprar de volta, com investimento comercial e promocional, uma posição que antes vinha de graça pela inércia. O reconhecimento acelera o processo, mas não substitui a negociação de espaço nem o teste de recompra.

O segundo erro é deixar a marca parada durante a suspensão. Nome ausente da categoria proibida ainda pode circular nas categorias liberadas, na comunicação institucional e no patrocínio, o que mantém a lembrança viva e encurta o caminho de volta quando o prazo vence.

O terceiro é migrar volume para uma marca fraca. Transferir uma linha inteira para um nome sem força na categoria transforma uma restrição temporária em perda permanente, porque o consumidor deslocado escolhe o concorrente e não a marca-abrigo. A migração só funciona com marca que o cliente já aceitava naquele lugar da prateleira.

Três perguntas ajudam a testar a própria operação:

1

Se a sua marca principal ficasse indisponível amanhã numa categoria, existe outro nome na sua casa capaz de segurar aquele volume sem perder cliente?

2

Quanto do seu resultado vem do espaço que o varejo te dá por hábito, e não da preferência declarada do consumidor?

3

Quanto tempo o seu nome sobrevive fora da prateleira antes de virar lembrança sem giro?

Marca de alimento parece indestrutível porque atravessa gerações, e é frágil num ponto específico: a presença física no ponto de venda. Suspender o nome por três anos numa categoria não apaga o reconhecimento, apaga a rotina de compra, e rotina se reconstrói com dinheiro e tempo.

O que o caso da BRF mostra é o valor de ter duas marcas fortes em vez de uma marca gigante. A empresa cumpriu a decisão do regulador, manteve o volume dentro de casa e devolveu a Perdigão à gôndola nos anos seguintes, categoria por categoria, conforme cada prazo se cumpria.

"Se o seu nome principal sumisse da prateleira por três anos, qual marca sua seguraria o volume?"

Cinco anos. Foi o teto do prazo de suspensão da marca Perdigão fixado pelo Termo de Compromisso de Desempenho assinado no CADE em 13 de julho de 2011.

 
 

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Depois da fusão aprovada pelo CADE, para qual marca do próprio portfólio da BRF foi transferido o volume de margarina que a Perdigão não podia mais vender?

ASadia
BRezende
CQualy
DConfiança

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