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A Supreme comprada por 2,1 bilhões e vendida por 1,5

A VF Corporation pagou 2,1 bilhões de dólares pela marca em 2020 e a EssilorLuxottica levou a mesma etiqueta por 1,5 bilhão em 2024.

Camiseta branca dobrada sobre balcão de loja, com etiqueta vermelha vazia no peito.

A etiqueta que trocou de dono duas vezes

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Aos 30 anos, o lojista James Jebbia abriu em abril de 1994 uma loja de roupa e skate no número 274 da Lafayette Street, em Nova York, com as araras encostadas nas paredes e o miolo da sala vazio para que os skatistas entrassem andando sobre o próprio skate.

O nome pintado na fachada era Supreme. O logotipo apareceu no mesmo ano: um retângulo vermelho com a palavra em Futura Heavy Oblique branca, desenho que qualquer estudante de design reconhece como decalque direto do trabalho da artista Barbara Kruger. Custou quase nada para produzir e virou o ativo mais caro da empresa.

A loja vendia camiseta, moletom e tábua de skate para um público pequeno do centro de Manhattan. A regra de operação que a tornou diferente era de estoque: peça nova toda quinta-feira, quantidade limitada, sem reposição de item esgotado. O comprador que chegava atrasado não achava o produto na semana seguinte, achava outro.

Vinte e três anos depois, em outubro de 2017, o fundo americano Carlyle Group comprou metade da empresa numa transação que avaliava a Supreme em cerca de 1 bilhão de dólares. Uma loja de bairro tinha virado um ativo de private equity, e a fila de quinta-feira passou a ser descrita em planilha.

Em 9 de novembro de 2020, a VF Corporation, dona de Vans, The North Face e Timberland, anunciou a compra da Supreme por 2,1 bilhões de dólares, com fechamento em dezembro daquele ano. Quatro anos depois, em 10 de julho de 2024, a mesma VF anunciou a venda da marca para a EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban e da Oakley, por 1,5 bilhão de dólares.

Nenhuma fábrica pegou fogo, nenhum processo derrubou a marca, nenhum concorrente copiou o produto. A etiqueta que valia 2,1 bilhões no fim de 2020 foi negociada por 1,5 bilhão em 2024, e a conta dessa perda começa no inventário do que a Supreme realmente vendia quando a VF assinou o cheque.

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Uma camiseta branca de algodão com um retângulo vermelho estampado no peito saía da loja da Lafayette Street por cerca de 44 dólares. A mesma camiseta, esgotada em minutos, era revendida em plataformas de segunda mão por duas, três, às vezes dez vezes o preço de tabela.

A margem que interessa ao dono da marca é a primeira. A segunda, porém, é o termômetro: enquanto o mercado paralelo cobra múltiplos, o consumidor está dizendo que a demanda excede a oferta por uma decisão da empresa, não por falta de capacidade fabril.

Três números descrevem o ativo que a VF comprou:

I  O Prêmio de Marca

O ativo que não cabia no balanço

•

Ano de abertura da primeira loja, na Lafayette Street, em Nova York: 1994

•

Valor atribuído à empresa quando o Carlyle Group comprou metade dela, em outubro de 2017: cerca de 1 bilhão de dólares

•

Valor pago pela VF Corporation na aquisição anunciada em 9 de novembro de 2020: 2,1 bilhões de dólares

O primeiro item do inventário é o calendário de lançamento. A quinta-feira de manhã virou compromisso semanal para uma base de compradores que organizava a rotina em torno do horário. Nenhum concorrente comprava aquele hábito, porque ele levou duas décadas para virar hábito.

O segundo é o número de portas. Em 2020 a Supreme operava pouco mais de uma dúzia de lojas físicas no mundo, entre Nova York, Los Angeles, Londres, Paris e cidades japonesas. Uma marca global com doze endereços trabalha com uma vantagem rara: quem quer comprar precisa se deslocar, esperar ou disputar, e a dificuldade faz parte do valor entregue.

O terceiro é a lista de parcerias. A coleção com a Louis Vuitton, apresentada em janeiro de 2017 na semana de moda masculina de Paris, colocou uma etiqueta de skate dentro de uma casa francesa de bagagem de luxo, e o efeito no preço de revenda das peças foi imediato.

"Aumente seus preços com o passar do tempo, para aumentar a demanda."

Jean-Noël Kapferer e Vincent Bastien, The Luxury Strategy, 2009

A frase soa contraintuitiva no varejo comum e descreve com precisão o mecanismo que a Supreme operava desde os anos 1990. Restrição de oferta e preço firme sustentavam a percepção de raridade, e a raridade sustentava a fila.

O comprador estratégico que assinou o cheque de 2,1 bilhões estava comprando um sistema de escassez administrada. A pergunta que a operação seguinte respondeu, com números públicos, é o que acontece com esse sistema quando ele passa a responder a uma meta de crescimento trimestral.

 
 

II  O Movimento

A escala prometida ao mercado

A VF Corporation anunciou aos investidores, no comunicado de 9 de novembro de 2020, que a Supreme somaria mais de 500 milhões de dólares em receita anual e caminharia para 1 bilhão de dólares, e a rota escolhida para chegar lá foi abrir mais lojas e vender mais fora dos Estados Unidos.

O plano tinha lógica industrial. Um grupo com Vans, The North Face e Timberland domina cadeia de suprimento, logística internacional e negociação com shopping center, e sabe multiplicar pontos de venda de uma marca de vestuário com custo marginal decrescente.

A execução seguiu o manual. Novas lojas abriram em cidades onde a marca só existia por importação, entre elas Milão em 2021, Chicago e Berlim em 2022, e Seul em 2023. O site passou a atender mais países, e o catálogo ganhou volume por temporada.

O resultado apareceu no relatório trimestral. A VF registrou no terceiro trimestre do ano fiscal de 2024, divulgado em fevereiro daquele ano, uma baixa contábil de 493 milhões de dólares no ágio ligado à Supreme, o reconhecimento formal de que a marca valia menos do que o preço pago por ela.

O que aconteceu entre a promessa e a baixa contábil cabe em quatro movimentos:

1

A oferta cresceu mais rápido que a demanda pela marca. Mais lojas e mais estoque por lançamento significam menos itens esgotados, e o comprador que sempre encontra o produto disponível perde o motivo para acordar cedo na quinta-feira.

2

O mercado de revenda esfriou junto. Quando o múltiplo de revenda cai, o sinal público de desejo cai com ele, e a plataforma de segunda mão deixa de funcionar como vitrine gratuita da marca.

3

A base original envelheceu sem ser substituída na mesma velocidade. Marca de rua depende de renovação geracional constante, e a renovação vem de cultura local, de skate, de música e de loja física frequentada, não de expansão de distribuição.

4

O calendário virou operação de grupo. A quinta-feira continuou existindo, com menos consequência prática para quem comprava, porque a escassez que dava sentido ao horário tinha sido diluída pela própria estratégia de crescimento.

Em 10 de julho de 2024, a VF anunciou a venda da Supreme para a EssilorLuxottica por 1,5 bilhão de dólares em dinheiro, com fechamento concluído no fim de setembro daquele ano. O comunicado da VF descreveu a operação como parte do programa de redução de dívida da companhia, e o CEO Bracken Darrell, no cargo desde julho de 2023, tratou a saída como ajuste de portfólio.

A compradora tem um perfil diferente da vendedora. A EssilorLuxottica fabrica e distribui armação e lente, opera Ray-Ban e Oakley, controla rede de óticas própria e trabalha com marcas que atravessam décadas com desenho estável, um repertório mais próximo do que a Supreme sempre fez com o retângulo vermelho.

 

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III  O Erro de Marca

Comprar escassez para depois diluí-la

O erro: pagar caro por uma marca cujo valor vem da restrição deliberada de oferta e, no dia seguinte à assinatura, cobrar dela um crescimento que só a ampliação de oferta entrega.

O que custa: cada nova loja e cada aumento de estoque por lançamento remove uma fração do desejo que justificava o preço da aquisição. A conta demora dois ou três anos para aparecer e chega inteira, em forma de baixa contábil, como os 493 milhões de dólares reconhecidos pela VF no terceiro trimestre do ano fiscal de 2024.

O que fica: o retângulo vermelho, o hábito de quinta-feira e a lista de parcerias continuam de pé sob o novo dono. Ativo de marca resiste a uma administração equivocada, e a recuperação depende de devolver ao produto a condição que o tornava difícil de obter.

O segundo erro é medir marca de desejo pelos mesmos indicadores de marca de volume. Receita por trimestre, número de portas e amplitude de catálogo funcionam para calçado esportivo de massa e informam mal quando o produto vale pela dificuldade de compra.

O terceiro é tratar cultura local como custo de marketing. A loja da Lafayette Street funcionava como ponto de encontro de uma cena de skate de Nova York, e a cena não aparece em planilha de despesa até o dia em que ela some e leva junto a razão pela qual alguém pagava 44 dólares numa camiseta branca.

Três perguntas ajudam a testar a própria operação:

1

O que o seu cliente paga hoje que ele deixaria de pagar se o produto ficasse disponível o tempo todo?

2

Quanto do seu crescimento planejado depende de aumentar oferta na mesma marca, e não de abrir uma linha separada com outro nome?

3

Se o preço de revenda do seu produto caísse pela metade, quantos meses passariam até alguém dentro da empresa notar?

Marca construída sobre restrição funciona como um estoque que se valoriza fechado. Abrir a torneira converte desejo em receita imediata e gasta o principal, e a companhia que faz a conversão descobre a soma final quando coloca o ativo de volta à venda.

"O que na sua marca só tem valor porque é difícil de conseguir?"

600 milhões de dólares. Foi quanto a VF Corporation deixou na mesa entre a compra da Supreme, por 2,1 bilhões em dezembro de 2020, e a venda para a EssilorLuxottica, por 1,5 bilhão, anunciada em 10 de julho de 2024.

 
 

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Em 10 de julho de 2024, por quanto a EssilorLuxottica comprou a Supreme da VF Corporation?

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B1,5 bilhão de dólares
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D493 milhões de dólares

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