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O erro: vender cerveja numa garrafa de vidro transparente, que deixa a luz atravessar e alterar o sabor da bebida.
O que custa: a cerveja exposta ao sol ou à luz da geladeira ganha um cheiro forte, que os cervejeiros comparam ao cheiro de gambá.
O que fica: a Corona nunca trocou o vidro; o limão no gargalo ajudou a esconder o defeito e virou parte da marca.
A explicação está no lúpulo (a flor que dá amargor à cerveja). A luz quebra moléculas do lúpulo, e os pedaços se ligam ao enxofre presente no líquido, formando um composto de cheiro muito parecido com o spray do gambá.
Garrafas marrons bloqueiam a maior parte da luz que provoca a reação. Garrafas verdes bloqueiam parte dela. O vidro transparente da Corona deixa passar quase tudo.
A cervejaria conhecia o problema. Trocar o vidro, porém, apagaria o traço visual que separava a Corona das concorrentes na prateleira: a cor dourada à mostra, com o rótulo pintado.
A escolha foi conviver com o defeito. Algumas cervejarias que usam vidro claro tratam o lúpulo com versões quimicamente modificadas, menos sensíveis à luz, mas a Corona não divulga detalhes da receita, e por isso não se sabe se adotou essa solução nem desde quando.
O defeito era conhecido também do lado de fora. Revistas e cursos de degustação passaram a citar a Corona como exemplo clássico de cerveja atingida pela luz, e cervejeiros artesanais usavam a garrafa transparente para mostrar o problema a iniciantes.
O limão entra de novo aqui. O ácido e o perfume da fruta disfarçam parte do cheiro de luz, e o cliente que nunca bebeu a Corona sem limão raramente percebe a falha.
O erro técnico ficou guardado dentro do ritual. Quem bebe pela primeira vez aprende o gesto antes de sentir o problema, e o gesto passa a fazer parte do sabor esperado.
Três perguntas antes de manter um defeito
O caso deixa um roteiro para qualquer marca que convive com uma falha conhecida no produto.
1. O defeito aparece para o cliente antes ou depois de ele se apegar à marca?
2. Existe um gesto ou acessório que transforma a falha em hábito agradável?
3. Corrigir o defeito apagaria o traço que faz o cliente reconhecer o produto de longe?
A primeira pergunta pesa mais do que parece. Quem conhece a Corona na praia, gelada e com limão, já criou memória boa da marca antes de reparar em qualquer cheiro estranho.
A Corona respondeu sim à terceira pergunta e manteve o vidro transparente desde 1925.
"Qual defeito do seu produto o cliente já aprendeu a gostar?"
16 anos. Foi o tempo entre a chegada da Corona Extra aos Estados Unidos, em 1981, e a liderança entre as cervejas importadas no país, em 1997, segundo o Grupo Modelo.
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