|
Durante a década de 1980, a campanha correu em cartazes e páginas de revista, com a garrafa em destaque e as duas palavras embaixo. O salto veio no começo dos anos 1990, quando a Lowe Howard-Spink levou a frase para a televisão.
O formato fugia do padrão das cervejas. Os comerciais eram curtas-metragens falados em francês, com legenda em inglês, filmados no interior rural com luz dourada, trilha de orquestra e atores com rosto de camponês.
A referência visual era Jean de Florette, filme de Claude Berri lançado em 1986 sobre uma disputa de aldeões por uma nascente de água na Provença, no sul da França. O filme tinha feito sucesso nos cinemas britânicos, e o público reconhecia o clima na hora.
A escolha do francês também pesava. Para o britânico médio dos anos 1990, a língua falada além do canal soava como sinônimo de cozinha refinada, vinho e cinema de arte, e a Stella pegava carona nessa fama sem precisar dizer uma palavra sobre si mesma.
Os enredos repetiam o mesmo motor. Um aldeão aceitava perder algo valioso, muitas vezes de forma cômica, para não abrir mão do copo de Stella. O sabor quase nunca entrava no roteiro, e a garrafa aparecia nos segundos finais.
O copo também tem cerimônia
Cada filme longo, caro e falado em outra língua reforçava a frase do cartaz. O espectador fazia a conta sozinho: uma cerveja barata jamais gastaria tanto para aparecer na televisão.
A propaganda cara servia de recibo para o preço caro da cerveja.
Nos anos 2000, a marca levou o mesmo raciocínio para o balcão. A Stella passou a exigir dos bares o cálice próprio, um copo de haste fina com a estrela gravada, e divulgou um ritual de servir em nove passos, ensinado a bartenders em concursos internacionais:
1. Lavar o cálice em água fria antes de servir.
2. Deixar escorrer as primeiras gotas da torneira, sem aproveitar.
3. Inclinar o copo a 45 graus sob o jato.
4. Endireitar o copo aos poucos para formar a espuma.
5. Fechar a torneira de uma vez e afastar o copo.
6. Raspar o excesso de espuma com uma espátula.
7. Conferir a altura da espuma, de dois a três dedos.
8. Lavar a base do copo para tirar a cerveja escorrida.
9. Servir sobre o porta-copos, com o logotipo virado para o cliente.
O ritual alongava a espera e transformava o ato de servir em espetáculo. Quem aguardava a cerveja no balcão via o bartender trabalhar por ela, e o preço do copo ganhava uma justificativa à vista de todos.
|