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Em 2013, a Ferrero tentou encerrar o Dia Mundial da Nutella

A carta dos advogados contra a blogueira Sara Rosso virou propaganda da festa, e a empresa acabou adotando a data como sua.

Pote de vidro de Nutella aberto sobre a mesa do café, com pão e colher.

A blogueira Sara Rosso criou a festa em 2007

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Em fevereiro de 2007, a blogueira americana Sara Rosso, moradora de Milão, publicou no próprio site um convite simples: no dia 5 daquele mês, quem gostasse de Nutella deveria comer, cozinhar e postar uma receita com o creme de avelã.

Ela dividiu a organização com a amiga Michelle Fabio, outra americana radicada na Itália e também dona de blog. Não havia patrocínio, logotipo oficial nem contato com a fabricante. Havia uma data, um nome em inglês, World Nutella Day (Dia Mundial da Nutella), e a vontade de reunir gente apaixonada pelo mesmo pote.

O convite pegou. A cada fevereiro, mais leitores mandavam fotos de crepes, bolos, panquecas e colheradas comidas direto do vidro. A festa ganhou página no Facebook, perfil no Twitter e versões em outras línguas, tocadas por fãs de países onde Sara nunca tinha pisado.

A fabricante italiana Ferrero, dona da marca, assistia de longe. Durante seis anos, a maior celebração anual em torno do seu produto correu de graça, conduzida por duas blogueiras e alimentada por receitas inventadas pelos próprios consumidores.

Em 2013, chegou a Sara uma notificação extrajudicial (o aviso formal de advogado, mandado antes de abrir processo na Justiça). A carta, assinada pelo departamento jurídico da Ferrero, pedia o fim do uso do nome e da imagem da marca no site da data.

Sara obedeceu. Em maio de 2013, publicou no blog um texto de despedida e anunciou o encerramento do Dia Mundial da Nutella, sem briga e sem advogado próprio.

A resposta veio da plateia. Fãs encheram as redes de protesto, jornais e sites de vários países contaram a história da blogueira calada pela fabricante, e a Ferrero apareceu no papel de vilã da própria festa.

Em poucos dias, a empresa recuou, procurou Sara diretamente e deixou a data seguir. Dois anos depois, assumiu a comemoração como sua. Como uma festa de fã virou patrimônio de uma marca, a faixa de abertura logo abaixo mostra, a começar pelo pote.

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I  O Prêmio de Marca

A pasta vendida em fatias

A história do pote começa numa confeitaria de Alba, cidade do Piemonte, no norte da Itália. Em 1946, o confeiteiro Pietro Ferrero lançou o Giandujot, um bloco firme de pasta de chocolate com avelã, embrulhado em papel-alumínio.

O doce era vendido em fatias. O comerciante cortava o pedaço com faca, a família levava para casa e as crianças comiam o bloco sobre uma fatia de pão. Saía barato, rendia muito e virou merenda comum nas casas da região.

Em 1951, a família Ferrero lançou a Supercrema, versão cremosa da mesma receita, vendida em pote para espalhar com faca. A mudança tirou a faca do balcão e pôs a colher na mão do cliente.

Treze anos depois, em 1964, Michele Ferrero, filho de Pietro, reformulou a Supercrema e deu a ela um nome novo, pensado para cruzar fronteiras. Nutella junta a palavra inglesa nut (castanha) ao sufixo italiano ella, um diminutivo carinhoso. O primeiro pote com o nome saiu da fábrica de Alba em 20 de abril daquele ano.

O nome no lugar da categoria

O creme de avelã com cacau não tem segredo industrial difícil de copiar. Supermercados de vários países vendem versões com marca própria, mais baratas, na prateleira vizinha. Mesmo assim, o comprador estica a mão até o pote de tampa branca e rótulo vermelho e preto.

Aqui mora o prêmio de marca: o dinheiro a mais que alguém aceita pagar só pelo nome impresso na embalagem. No caso da Nutella, o nome engoliu o produto. Quem pede creme de avelã na padaria, em boa parte da Europa e no Brasil, costuma pedir pela marca.

Quando o nome da marca vira o nome da categoria, o cliente para de comparar preço na prateleira.

A Ferrero cultivou o costume com o próprio pote. Em vários mercados europeus, a Nutella chegou ao varejo em vidros desenhados para virar copo depois de vazios, e muita família guardou a louça da cozinha cheia de vidros do creme.

O carinho do cliente é o patrimônio mais caro da marca e não aparece no balanço. Ele mora na lembrança do lanche da infância, na receita da avó e na colherada escondida na porta da geladeira.

O Dia Mundial da Nutella nasceu desse carinho. Sara Rosso não pediu nada à Ferrero. Ela organizou, de graça, uma festa em homenagem a um produto, e milhares de pessoas pelo mundo aderiram por conta própria, cozinhando com o pote e espalhando fotos do nome da marca.

Para o departamento de marketing, a data valia ouro. Para o departamento jurídico, era uso não autorizado de marca registrada, com logotipo copiado e domínio na internet registrado por uma estranha.

 
 

II  O Movimento

A carta que espalhou a festa

A carta chegou a Sara Rosso numa rotina comum de proteção de marca. Grandes empresas mantêm escritórios dedicados a rastrear sites, produtos e páginas com o próprio nome e mandam avisos em série a quem aparece na busca.

O aviso não fez distinção entre o falsificador e a fã. Pediu o fim do uso do logotipo, do nome e das imagens da Nutella na página do Dia Mundial e em todo material de divulgação.

Sara contou o caso no blog sem atacar a empresa. Escreveu que ia cumprir o pedido, agradeceu aos leitores dos seis anos de festa e se despediu. O tom calmo do texto deixou a fabricante ainda pior na foto.

O post se espalhou. Blogs de culinária replicaram a despedida, leitores marcaram a Ferrero nas redes, e jornais e sites de tecnologia de vários países noticiaram o caso da blogueira silenciada pela fabricante do creme.

O efeito Streisand

O episódio repetiu um fenômeno batizado anos antes. Em 2003, a cantora Barbra Streisand processou o fotógrafo Kenneth Adelman, autor de um arquivo com milhares de fotos aéreas do litoral da Califórnia, porque uma das imagens mostrava a mansão dela em Malibu.

Antes do processo, a foto da casa tinha sido baixada 6 vezes, duas delas pelos advogados da própria cantora, segundo os registros do California Coastal Records Project, o arquivo de Adelman. Depois da notícia da ação, a mesma imagem recebeu centenas de milhares de visitas em um mês.

Em 2005, o jornalista Mike Masnick, do site Techdirt, deu nome ao padrão: efeito Streisand (quando a tentativa de esconder algo faz o assunto se espalhar mais). A Ferrero entrou no catálogo dos exemplos em 2013.

A carta dos advogados fez pelo Dia Mundial da Nutella mais propaganda do que seis anos de receitas.

A empresa leu o estrago rápido. Poucos dias depois do post de despedida, a Ferrero divulgou um comunicado chamando o caso de procedimento rotineiro de proteção de marca, agradeceu a Sara pela dedicação e informou ter falado com ela por telefone.

Na mesma nota, a fabricante disse ter retirado a notificação e declarou apoio à continuidade da data. Sara publicou uma atualização no blog confirmando o acordo e reabriu a festa, que voltou a acontecer em 5 de fevereiro do ano seguinte.

O recuo encerrou a crise sem processo, sem multa e sem acordo financeiro anunciado. A marca saiu do episódio com um aprendizado público e uma relação nova com a mulher dona da festa mais popular em torno do seu produto.

 

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III  O Erro de Marca

A festa troca de dono

O erro: tratar a fã mais dedicada da marca com a mesma carta mandada ao falsificador.

O que custa: a empresa vira vilã da história de amor do próprio cliente com o produto.

O que fica: a fabricante só controla a data depois de pedir licença a quem a criou.

O procedimento jurídico estava correto no papel. A Ferrero tinha o direito de proteger a marca registrada, e o uso livre do logotipo, sem controle, pode enfraquecer a proteção legal do nome com o tempo.

O erro estava no destinatário. A carta tratou como ameaça a pessoa mais disposta a defender a Nutella de graça. Na hora em que a notícia saiu, a briga deixou de ser jurídica e passou a ser afetiva, terreno onde a fã ganha.

A saída escolhida pela empresa acabou mais inteligente do que o ataque. A Ferrero chegou perto, conversou com Sara e esperou dois anos.

A data muda de casa

Em 2015, Sara Rosso anunciou no blog a entrega do Dia Mundial da Nutella à Ferrero. Depois de oito edições, ela disse ter decidido passar a festa adiante e confiar a organização à própria fabricante, com a qual mantinha contato desde o acordo de 2013.

A empresa assumiu o site, os perfis nas redes e o calendário. O 5 de fevereiro entrou na agenda oficial da marca, com receitas, sorteios e ações em dezenas de países, agora tocadas pelas equipes de marketing da Ferrero.

O nome continuou o mesmo, World Nutella Day, e a data continuou a do convite de 2007. A fabricante herdou uma festa pronta, com público fiel, sem precisar inventar a tradição.

A lição serve a qualquer marca com fã apaixonado. O cliente que celebra o produto por conta própria trabalha de graça pela reputação dela, e a carta de advogado contra ele custa mais caro do que qualquer uso indevido do logotipo.

8 anos. Separam o primeiro 5 de fevereiro de Sara Rosso, em 2007, da entrega da festa à Ferrero, anunciada pela blogueira no próprio blog em 2015.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que Pietro Ferrero pôs avelã na primeira pasta, em 1946, no lugar de usar só chocolate?

 
 
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Em que ano a Ferrero deixou de brigar com o Dia Mundial da Nutella e assumiu a data como própria?

A2013
B2014
C2015
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