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Em 2018, a Lacoste trocou o crocodilo por 10 espécies ameaçadas

A tiragem de cada polo seguiu a contagem de animais vivos na natureza: 30 camisas para a vaquita, 1.775 no total.

Polo branco da Lacoste com um rinoceronte-de-java bordado no peito, no lugar do crocodilo.

Dez animais ameaçados no lugar do crocodilo, 2018

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Aos 29 anos, já longe das quadras, o tenista francês René Lacoste fundou em 1933 uma fábrica de camisas com o industrial André Gillier, dono de uma malharia, e mandou bordar um crocodilo verde no peito de cada peça.

A camisa era de piqué (algodão tecido em relevo miúdo), de manga curta e gola mole. O bicho ficava do lado esquerdo, na altura do coração. O bordado ocupou o mesmo lugar por 85 anos.

Em 2018, a Lacoste tirou o crocodilo pela primeira vez. No lugar dele entraram dez animais da Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), o catálogo mundial de espécies ameaçadas.

Cada animal ganhou tiragem própria, e o número de camisas seguiu a contagem de indivíduos ainda vivos na natureza, segundo a IUCN. A vaquita, um boto do Golfo da Califórnia, ganhou 30 polos. O tigre-de-sumatra ganhou 350.

A lista seguia assim: tartaruga-de-telhado-da-birmânia, 40 camisas; lêmure-esportivo-do-norte, 50; rinoceronte-de-java, 67; gibão-de-cao-vit, 150; kakapo, um papagaio da Nova Zelândia, 157; condor-da-califórnia, 231; saola, um bovino das florestas do Vietnã e do Laos, 250; iguana-de-anegada, 450.

Somadas, as dez tiragens deram 1.775 camisas, vendidas a 150 euros cada. A coleção levou o nome Save Our Species (salve nossas espécies), o mesmo do programa da IUCN que recebia o dinheiro.

Os bordados copiavam o desenho do crocodilo: mesmo tamanho, mesmo traço, mesmo lugar no peito. Quem olhava de longe via uma Lacoste comum. Quem chegava perto via um animal com poucas dezenas de exemplares no planeta.

Uma marca de roupa raramente mexe no próprio logotipo, e quase nunca o tira da peça que mais vende. A Lacoste tirou e manteve todo o resto igual, para o cliente reconhecer a camisa sem o bicho.

A primeira faixa conta de onde veio o crocodilo e por que o desenho valia tanto a ponto de a troca virar notícia no mundo inteiro.

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I  O Prêmio de Marca

A mala de couro em Boston

Em 1923, René Lacoste tinha 19 anos e viajou aos Estados Unidos com a equipe francesa da Copa Davis, o torneio de tênis disputado entre países. Em Boston, parou diante de uma vitrine com uma mala de couro de jacaré.

O capitão da equipe, Pierre Gillou, prometeu a mala de presente se o rapaz vencesse a partida seguinte. Lacoste perdeu o jogo e ficou sem a mala.

A aposta, porém, chegou aos jornalistas americanos, que passaram a chamá-lo de Alligator (jacaré, em inglês). Na França, o apelido virou le Crocodile. A imprensa gostou da imagem porque combinava com o estilo dele em quadra: paciente, preso à linha de fundo, devolvendo bola até o adversário errar.

O apelido ganhou desenho em 1927. O amigo Robert George, estilista, desenhou um crocodilo que Lacoste mandou bordar no blazer que usava ao entrar em quadra.

O blazer bordado passou a aparecer nas fotos de jornal ao lado do jogador. Antes de existir empresa, o crocodilo já identificava uma pessoa, e o público ligava o desenho ao nome sem legenda.

Naquele mesmo ano, a França ganhou a Copa Davis pela primeira vez, contra os Estados Unidos, com Lacoste e mais três tenistas que os jornais chamavam de Os Quatro Mosqueteiros.

Sete títulos e uma camisa

Lacoste venceu sete torneios do Grand Slam (os quatro maiores do tênis) em simples: três em Roland-Garros, dois em Wimbledon e dois no torneio dos Estados Unidos.

No fim dos anos 1920, os tenistas jogavam de camisa social de manga comprida, abotoada e engomada. Lacoste passou a usar uma camisa de manga curta, de piqué, que deixava o suor sair e não grudava no corpo.

Quando uma doença respiratória o afastou do circuito, ele levou a camisa para a indústria. A parceria com André Gillier, em 1933, colocou o crocodilo pela primeira vez numa peça vendida em loja.

O crocodilo ia do lado de fora da camisa, à vista de qualquer pessoa na rua.

Até então, a marca de uma roupa morava na etiqueta, escondida na gola. O bordado da Lacoste costuma ser apontado pelos historiadores da moda como um dos primeiros logotipos expostos numa peça de vestir.

Esse era o prêmio da marca. Um bicho de poucos centímetros identificava a camisa sem uma letra escrita, e qualquer pessoa reconhecia a origem a vários metros de distância.

A troca de 2018 chamou atenção por esse motivo. A Lacoste mexia justamente no pedaço da roupa que carregava o nome da casa havia 85 anos.

 
 

II  O Movimento

Um bordado para cada animal contado

A coleção de 2018 nasceu de uma parceria da Lacoste com a IUCN e com a agência de publicidade francesa BETC, que cuidava da conta da marca.

A IUCN mantém a Lista Vermelha desde 1964. O catálogo classifica cada espécie por risco, e a faixa mais grave antes da extinção na natureza se chama criticamente em perigo. Os dez animais da coleção vieram dessa lista.

A ideia usava a tiragem como mensagem. Uma edição limitada costuma ter número redondo, escolhido pelo departamento comercial. Na coleção de 2018, o número de cada lote vinha da contagem dos biólogos.

O número no peito

Quem comprava um polo da vaquita levava uma de 30 camisas, e cada camisa correspondia a um animal vivo no Golfo da Califórnia.

O rinoceronte-de-java vivia num único lugar, o Parque Nacional de Ujung Kulon, na ponta oeste da ilha de Java, na Indonésia. As 67 camisas repetiam a população inteira do parque.

O condor-da-califórnia tinha história própria de quase desaparecimento. Em 1987, biólogos dos Estados Unidos recolheram o último condor solto na natureza para criar a espécie em cativeiro e soltar os filhotes depois. As 231 camisas contavam as aves de volta ao céu.

O saola só foi descrito pela ciência em 1992, a partir de chifres achados na casa de caçadores no Vietnã. Poucos pesquisadores viram o animal vivo, e o número de 250 vem de estimativa da IUCN, sem censo direto.

O kakapo, papagaio que não voa e sai para comer à noite, vive em ilhas sem predadores na Nova Zelândia, e cada ave recebe nome da equipe que a acompanha. As 157 camisas correspondiam a aves com nome próprio.

A tiragem transformava uma estatística de conservação em estoque de loja.

O desenho dos bordados seguiu a gramática do crocodilo. Cada animal apareceu de perfil, no mesmo tamanho e com o mesmo verde da marca, de modo que o polo continuava a parecer um polo Lacoste.

Os 150 euros por peça ficavam na faixa de preço das edições especiais da casa. O comprador pagava o valor de uma Lacoste e levava junto uma peça numerada pela natureza, com a renda destinada ao programa Save Our Species.

As camisas esgotaram logo depois do lançamento, segundo a própria Lacoste. A falta de estoque também comunicava: o cliente que não achava o polo da vaquita entendia, sem ler nenhum folheto, quão poucos animais restavam.

O movimento funcionou porque o logotipo já era conhecido no mundo inteiro. Só uma marca com o desenho gravado na memória do público consegue tirá-lo e ainda assim ser reconhecida pelo contorno.

 

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III  O Erro de Marca

O jacaré de loja de departamento

O erro: emprestar o crocodilo a quem vendia em massa.

O que custa: o logotipo vira uniforme comum.

O que fica: símbolo fácil de achar perde valor.

O crocodilo nem sempre foi raro. Em 1952, a Lacoste licenciou a marca nos Estados Unidos para a confecção americana David Crystal, que passou a vender as camisas com o nome Izod Lacoste.

Em 1969, o grupo de alimentos General Mills comprou a David Crystal. A camisa entrou nas lojas de departamento de todo o país, em dezenas de cores, e boa parte das peças passou a levar poliéster misturado ao algodão.

O uniforme do colégio caro

No começo dos anos 1980, o bicho bordado virou símbolo de estudante de colégio particular americano, o estilo que os americanos chamam de preppy (dos alunos das escolas preparatórias).

A escritora Lisa Birnbach publicou em 1980 The Official Preppy Handbook (o manual oficial do preppy), uma sátira desse grupo social, e a camisa do jacaré aparecia entre as peças obrigatórias do figurino.

Quando todo mundo usa o mesmo símbolo, o símbolo para de dizer algo sobre quem o usa.

O auge cobrou a conta. Em meados dos anos 1980, a moda passou, as lojas encalharam camisas e o jacaré começou a ser lembrado como roupa de outra década.

As cópias também se multiplicaram. Com a camisa em toda vitrine, falsificar o bordado ficou fácil, e o crocodilo passou a aparecer em barracas de feira de vários países, costurado em tecido barato.

Em 1985, a General Mills vendeu o negócio de roupas, e a nova dona, a Crystal Brands, entrou em crise no começo dos anos 1990. Em 1993, a Lacoste retomou os direitos da marca nos Estados Unidos e passou a controlar de novo onde o crocodilo era vendido.

A recuperação levou anos. A marca reduziu os pontos de venda, voltou ao algodão de piqué e reposicionou a camisa como peça de preço alto.

A coleção de 2018 mostra a lição aprendida. A casa que já tinha espalhado o crocodilo por milhões de peças baratas passou a tratar o próprio logotipo como bem escasso, contado um a um.

1.775 camisas. Foi a tiragem total da coleção Save Our Species, somados os dez animais da Lista Vermelha da IUCN que a Lacoste bordou em 2018.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, por que a edição do rinoceronte-de-java na coleção Save Our Species teve tiragem de exatamente 67 camisas?

APorque foi o número de polos vendidos no primeiro dia daquela espécie
BPorque esse era o total de rinocerontes-de-java vivos no Parque Nacional de Ujung Kulon
CPorque 67 era o ano de fundação do parque indonésio
DPorque a IUCN limitou a tiragem máxima por espécie a esse número

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