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Em 2019, a P&G cortou 8 bilhões de dólares do valor da Gillette

Lâmina por assinatura a preço baixo e corte de preço na prateleira encolheram a marca comprada por 57 bilhões em 2005.

Aparelho de barbear Gillette de cinco lâminas sobre uma pia, ao lado de uma caixa de lâminas entregue pelo correio.

Gillette na pia, rivais na caixa de correio

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Aos 61 anos, o engenheiro David Taylor, presidente da Procter & Gamble, anunciou em 30 de julho de 2019 uma baixa de 8 bilhões de dólares no valor da Gillette, a marca de lâminas de barbear da empresa.

Baixa contábil é o registro, no balanço, de que um bem da empresa vale menos do que o preço pago por ele. Ela não tira dinheiro do caixa no dia. Ela admite, por escrito, que a marca vai render menos do previsto na compra.

A P&G tinha comprado a Gillette em 2005 por 57 bilhões de dólares, a maior aquisição da história da empresa até então. Catorze anos depois, reconhecia ter pago caro por uma parte do que levou.

O comunicado da P&G citou três motivos: a queda de outras moedas frente ao dólar, homens se barbeando com menos frequência e um mercado de barbear encolhido nos países ricos, onde a concorrência tinha apertado.

A concorrência tinha endereço. Desde 2012, empresas novas vendiam lâmina pela internet, por assinatura mensal, entregue em casa pelo correio, por poucos dólares.

Durante quase cinco anos, a Gillette tratou os novatos como moda passageira de internet. Manteve os preços, apostou em aparelhos com mais recursos e seguiu pagando pelo melhor espaço das farmácias.

A resposta veio tarde. Em 2017, a P&G cortou em média 12% o preço das lâminas nas prateleiras dos Estados Unidos, com quedas de até 20% em alguns produtos, segundo a própria empresa.

O corte segurou parte dos clientes e encolheu o lucro por lâmina. A baixa de 2019 pôs no papel o tamanho do estrago acumulado em sete anos.

A marca vendia o mesmo produto havia mais de um século, sempre com a mesma lógica: aparelho barato, lâmina cara, cliente preso à recarga. Os novos concorrentes atacaram justamente a recarga.

A primeira faixa conta quem inventou esse modelo de cobrança e como ele deu à Gillette quase cem anos de vantagem.

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I  O Prêmio de Marca

O vendedor de tampinhas

Em 1895, King Camp Gillette tinha 40 anos e vendia tampas de garrafa para a Crown Cork & Seal, em Baltimore. O dono da empresa, William Painter, inventor da tampinha de metal com cortiça por dentro, deu a ele um conselho: criar um produto que o cliente usasse, jogasse fora e comprasse de novo.

Numa manhã daquele ano, ao se barbear com a navalha cega, Gillette imaginou uma folha fina de aço presa num cabo, barata a ponto de ir para o lixo quando perdesse o fio.

Na época, o homem se barbeava com navalha reta, que precisava ser afiada todo dia numa tira de couro, ou pagava o barbeiro. Uma lâmina descartável eliminava as duas despesas de tempo.

A ideia tinha um custo escondido para o cliente. Quem comprasse o aparelho ficaria preso às folhas de reposição da mesma fábrica, porque nenhuma outra encaixava no cabo.

A lâmina de 1903

O problema era de fábrica. Os metalúrgicos consultados por Gillette diziam que aço tão fino não aguentava têmpera (o aquecimento e resfriamento que endurece o metal) sem entortar.

Levou seis anos até o engenheiro William Nickerson, formado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), montar as máquinas que afiavam e temperavam as folhas em série.

A American Safety Razor Company nasceu em 1901, em Boston, e logo passou a se chamar Gillette. Em 1903, o primeiro ano de vendas, saíram 51 aparelhos e 168 lâminas.

Em 1904, com a patente concedida, a conta subiu para 90.844 aparelhos e 123.648 lâminas. O rosto de King Gillette vinha impresso em cada envelope de lâmina, e virou um dos rostos mais conhecidos do país.

A Gillette ganhava pouco no aparelho e muito na recarga.

O arranjo ganhou nome nas escolas de negócio: modelo do aparelho e da lâmina. A história completa tem um detalhe. O professor de direito Randal Picker, da Universidade de Chicago, mostrou em 2010, no estudo The Razors-and-Blades Myth(s) (os mitos do aparelho e da lâmina), que a Gillette só baixou o preço do aparelho depois de 1921, quando a patente venceu.

Enquanto a patente valeu, a empresa cobrou caro pelas duas peças. Quando os rivais puderam copiar o aparelho, a Gillette passou a quase dá-lo de graça, para garantir que a recarga comprada fosse a dela.

Em 1917, com os Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, o Exército comprou aparelhos Gillette para os soldados. Os homens voltaram da guerra com o hábito de se barbear sozinhos em casa.

O prêmio da marca estava montado: um gesto diário, repetido por décadas, preso a uma peça de reposição que só a Gillette fabricava.

 
 

II  O Movimento

Uma lâmina a mais por década

Com o modelo de recarga firme, a Gillette passou a competir consigo mesma. A cada década, lançava um aparelho novo e uma recarga nova, sempre um pouco mais cara.

Em 1971 veio o Trac II, o primeiro aparelho de duas lâminas vendido em massa. Em 1977, o Atra trouxe a cabeça que se inclinava para seguir o rosto. Em 1990, o Sensor colocou as lâminas sobre molas.

Três lâminas, depois cinco

Em 1998, a empresa lançou o Mach3, de três lâminas. A Gillette informou ter gasto 750 milhões de dólares no desenvolvimento e na fábrica do aparelho, e a recarga chegou às lojas custando cerca de 50% acima da do Sensor.

Em 2006 saiu o Fusion, com cinco lâminas na frente e uma atrás para aparar costeleta. A recarga do Fusion virou um dos itens mais furtados das farmácias americanas, e muitas lojas passaram a guardá-la atrás do balcão ou em caixa trancada.

Desde 1989, a propaganda repetia o mesmo bordão: The Best a Man Can Get (o melhor que um homem pode ter). A frase vendia o aparelho de ponta como o padrão de qualquer homem.

Cada lâmina nova servia para cobrar mais pela recarga.

O movimento funcionava porque o cliente mal comparava preço. A recarga ficava pendurada no mesmo gancho da farmácia, ao lado do aparelho que ele já tinha em casa, e só servia nele.

O comprador de 57 bilhões

Em 2005, a Procter & Gamble, dona de Pampers e Ariel, comprou a Gillette por 57 bilhões de dólares. A Berkshire Hathaway, holding do investidor Warren Buffett, era a maior acionista da Gillette e trocou as ações pelas da P&G.

A compra levava uma máquina de margem alta. A Gillette dominava as lâminas nos Estados Unidos: em 2010, segundo a consultoria Euromonitor International, tinha 70% do mercado americano de lâminas e aparelhos masculinos.

Nenhum rival vendia lâmina de outro jeito. A disputa acontecia na prateleira, e na prateleira a Gillette ocupava a maior parte do espaço, pagava o melhor lugar e tinha o maior orçamento de televisão.

Esse era o ponto fraco escondido no ponto forte. Todo o modelo dependia de o cliente entrar na farmácia, olhar o gancho e pagar o preço marcado.

Bastava um rival levar a lâmina direto à casa do cliente para o gancho da farmácia perder o poder de fixar preço.

 

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III  O Erro de Marca

Um vídeo de 4.500 dólares

O erro: cobrar caro numa compra repetida.

O que custa: o rival vende a mesma lâmina barata.

O que fica: a recarga cara convida concorrente.

Em 2011, o publicitário americano Michael Dubin fundou em Venice, na Califórnia, o Dollar Shave Club (clube da lâmina de um dólar). A proposta era simples: lâmina comprada de fabricante asiático, enviada por correio todo mês, a partir de 1 dólar mais frete.

Em março de 2012, Dubin publicou no YouTube um vídeo de um minuto e meio, gravado num depósito, em que ele mesmo zombava das lâminas cheias de recursos. Segundo Dubin, o vídeo custou 4.500 dólares e trouxe 12 mil pedidos nas primeiras 48 horas.

Os rivais da caixa de correio

Em 2013, os empresários Andy Katz-Mayfield e Jeff Raider fundaram a Harry's, outra marca de lâmina por assinatura. Em 2014, a Harry's comprou a Feintechnik, uma fábrica alemã de lâminas, e passou a produzir a própria recarga.

Em 2016, a Unilever, dona de Dove e Rexona, comprou o Dollar Shave Club por 1 bilhão de dólares. A briga deixou de ser entre a Gillette e uma startup e passou a ser entre a P&G e a maior rival dela.

Quem vende a recarga cara ensina o cliente a procurar outra.

A fatia da Gillette caiu. Segundo a Euromonitor International, em levantamento citado pelo Wall Street Journal em 2017, a marca passou de 70% do mercado americano em 2010 para 54% em 2016.

A moda ajudou a queda. Na mesma década, a barba cheia voltou aos rostos jovens, e homem barbudo compra menos lâmina, venha ela da farmácia ou do correio.

Em abril de 2017, a P&G cortou os preços na prateleira. O corte manteve parte dos clientes e derrubou o ganho por recarga, a peça que sustentava a marca desde 1904.

A Gillette também tentou a arma dos rivais. Lançou o Gillette Shave Club, o próprio serviço de assinatura pela internet, mas chegou depois de os novatos já terem conquistado o cliente que comprava pelo celular.

Em julho de 2019, a baixa contábil fechou a conta da década perdida. A marca seguia líder, ainda vendia bilhões, e valia bem menos que o preço pago em 2005.

8 bilhões de dólares. Foi a baixa contábil lançada pela Procter & Gamble sobre o valor da Gillette no balanço anual de 2019.

 
 
Quiz da edição

Quanto custou o vídeo que Michael Dubin publicou no YouTube em março de 2012 para lançar o Dollar Shave Club?

A45.000 dólares
B450 dólares
C4.500 dólares
D14.500 dólares

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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