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O erro: prender a marca a um lugar fora do seu controle.
O que custa: cada crise de Moscou vira boicote no bar.
O que fica: a origem vende, e a origem também cobra.
Em fevereiro de 2022, o ralo voltou a receber garrafas. Pela terceira vez em quarenta anos, a vodca pagava por uma decisão do governo russo, e desta vez o dono dela era um adversário declarado desse governo.
A explicação do rótulo não alcançava o balcão. Quem despejava a garrafa via o nome russo e o hotel de Moscou, e não lia a linha pequena com o endereço da fábrica em Riga.
O próprio rótulo tinha ensinado o cliente a ler a garrafa assim. Por cinquenta anos, a Stolichnaya vendeu Moscou como prova de qualidade, e o cliente aprendeu a lição inteira, inclusive na hora de boicotar.
Na prateleira americana, a Stoli disputava espaço com vodcas feitas nos Estados Unidos, na França e na Polônia. Nenhuma delas trazia no nome uma capital envolvida numa guerra.
O nome cortado
Em março de 2022, o grupo cortou Stolichnaya do rótulo. Damian McKinney, presidente-executivo do grupo na época, explicou a decisão em entrevistas: o nome comprido tinha passado a ligar a vodca ao governo de Putin.
O corte resolvia o rótulo e não resolvia a briga. Dentro da Rússia, a estatal seguia vendendo a sua Stolichnaya, agora sem concorrência da garrafa de Shefler.
Apagar o nome do rótulo não apaga o nome da cabeça do cliente.
O apelido curto entrou sozinho no rótulo, mas a lembrança de Moscou seguiu nos bares. Os dados públicos de venda por país não mostram quanto do boicote voltou depois da troca, porque o grupo, de capital fechado, não divulga essas contas.
A crise chegou ao caixa em 2024. Em novembro daquele ano, as subsidiárias americanas do grupo, a Stoli Group USA e a destilaria Kentucky Owl, entraram com pedido de recuperação judicial num tribunal do Texas.
Recuperação judicial é o processo em que a empresa pede proteção contra os credores enquanto renegocia as dívidas, sem fechar as portas. No caso da Stoli, o pedido cobria só as operações americanas.
Nos documentos do processo, a empresa citou vendas em queda, o custo da briga com o Estado russo e um ataque de hackers aos sistemas do grupo em agosto de 2024. A marca seguiu à venda nas prateleiras durante o processo.
O nome que levou a vodca aos bares americanos em 1972 saiu do rótulo cinquenta anos depois, pelo mesmo motivo: ele dizia, a cada garrafa, de onde ela vinha.
22 anos. Foi o tempo entre a partida de Yuri Shefler da Rússia, em 2000, e o rótulo sem Stolichnaya, em março de 2022, segundo o próprio grupo Stoli.
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