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ED 011

O caderno preto que voltou com Hemingway dentro

Uma editora de Milão relançou em 1997 um caderno fora de linha desde 1986, e o folheto dobrado no bolso da contracapa fez o preço subir.

Caderno preto de capa dura com elástico ao lado de um folheto dobrado com nomes de artistas.

O caderno preto e o folheto dobrado no bolso

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Num expositor de livraria, um caderno preto de capa dura fica em pé ao lado dos lançamentos. Elástico na vertical, cantos arredondados, fita marcadora, 240 páginas pautadas de papel marfim e um bolso sanfonado colado na contracapa.

Dentro do bolso vem um folheto dobrado com um parágrafo de história. O texto cita Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway e Bruce Chatwin, e apresenta o caderno como herdeiro do que essa gente usava para escrever fora de casa.

Duas prateleiras adiante, na mesma loja, existe caderno de capa dura com papel parecido, elástico igual e um terço do preço. Nenhuma patente separa um do outro, e qualquer encadernador entrega o objeto.

O modelo também não é invenção recente. Oficinas de Paris vendiam esse caderno preto de capa emborrachada desde o fim do século 19, e moleskine era substantivo comum, o nome do tecido que cobria a capa.

A última oficina que fabricava a peça ficava em Tours, na França, e fechou em 1986. Por onze anos o caderno sumiu da prateleira europeia sem que ninguém reclamasse, tirando um escritor inglês que dependia dele.

Em 1997 uma editora pequena de Milão, a Modo & Modo, colocou o objeto de volta em circulação. Registrou o nome como marca própria, mandou fazer cinco mil unidades e imprimiu o folheto que viaja dentro de cada uma.

O desenho parou no tempo de propósito. A mesma capa preta, o mesmo elástico e o mesmo bolso saem da linha há quase trinta anos, iguais em livraria de aeroporto, loja de museu e papelaria de bairro.

O comprador também mudou de endereço. O caderno saiu do corredor de material escolar e foi para a mesa de livraria, ao lado de livro, que é onde vinte dólares por um objeto de papel deixam de assustar.

A marca do dia é a Moleskine, e a conta começa por uma pergunta de margem: quanto uma empresa consegue ganhar vendendo papel pautado quando o argumento do preço vem impresso e dobrado dentro da capa.

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I  O Prêmio de Marca

O papel comum, margem maior que a da Prada

A margem diz mais que a etiqueta. Em 2012 a Moleskine fechou o ano com margem operacional de 41,7%, acima da Prada, com 27,2%, da Tumi, com 19,7%, e da L'Occitane, com 16,7%, todas vendendo produto mais caro de fabricar.

A receita do ano chegou perto de 80 milhões de euros, com EBITDA de 31,4 milhões e margem de 40,2%. Papel, papelão e elástico custam pouco, e a distância entre o custo e o preço é quase toda prêmio de marca.

A curva até ali foi constante. Entre 2009 e 2012 a receita cresceu 24% ao ano, e o EBITDA saiu de 15 milhões de euros para os 31,4 milhões, sem material novo, sem patente e sem categoria nova.

O mercado pagou para entrar. Em 2013 a empresa abriu capital na Borsa Italiana a 2,30 euros por ação, levantou 269,1 milhões de euros e passou a valer 487,6 milhões, num ano em que a bolsa de Milão quase não teve estreia.

Um caderno pautado avaliado em quase meio bilhão de euros não está vendendo papel, está vendendo o parágrafo impresso no folheto que vem dentro dele.

Em 2016 o grupo belga D'Ieteren comprou o controle e lançou oferta pelo restante a 2,40 euros por ação, preço que colocou a empresa inteira em 506 milhões de euros. O ativo pago foi uma marca, não um parque fabril.

Parte do prêmio se justifica no objeto, e vale escrever. A capa dura aguenta fundo de mochila, o elástico segura o caderno fechado com recibo e cartão dentro, e a peça é idêntica em Tóquio, Berlim ou São Paulo.

A padronização trabalha a favor do preço. Quem terminou um caderno compra o próximo igual, encaixa na estante ao lado dos anteriores, e a coleção cria um custo de troca que concorrente nenhum resolve com desconto.

O resto do prêmio é pago pelo lugar na loja. A Moleskine entrou em livraria, museu e loja de design, e em 2012 já estava em 22 mil pontos de venda espalhados por 95 países, quase nunca no corredor escolar.

Vizinho de prateleira é argumento de preço. Ao lado de um livro de 25 dólares, um caderno de 22 parece razoável, e ao lado do bloco de 4 dólares do supermercado, o mesmo caderno parece um assalto.

Uma margem desse tamanho levanta uma pergunta prática de negócio. O que uma editora de Milão fez em 1997 para que um objeto sem patente, fora de linha havia onze anos, voltasse à prateleira cobrando preço de marca?

 
 

II  O Movimento

Cinco mil cadernos e um folheto dobrado

O movimento não foi desenhar um caderno novo, foi registrar como marca um nome que era substantivo comum e embarcar a origem dentro da capa. Em 1997 a Modo & Modo mandou fazer cinco mil unidades, e no ano seguinte já produzia 30 mil por ano.

A história que a empresa vende foi contada antes por um escritor. Em The Songlines, de 1987, Bruce Chatwin descreve a papelaria da rue de l'Ancienne Comédie, em Paris, onde comprava cadernos pretos de capa emborrachada antes de cada viagem.

Antes de partir para a Austrália, Chatwin encomendou cem unidades e ficou sem. A oficina de Tours que fabricava o modelo tinha fechado em 1986, depois que o dono saiu de cena e os herdeiros venderam o negócio.

"Le vrai moleskine n'est plus."

Bruce Chatwin, The Songlines, 1987

Dez anos depois, em Milão, Maria Sebregondi leu o trecho e levou uma proposta à Modo & Modo, editora pequena de livros e agendas: fabricar de novo o caderno que o livro dava por encerrado.

A decisão que virou a chave foi de papelada, não de fábrica. Moleskine era palavra comum em francês, o algodão emborrachado que cobria a capa, e a Modo & Modo registrou a palavra como marca própria.

O que era categoria virou propriedade. Qualquer encadernador continuava podendo fabricar o objeto, e nenhum deles podia mais chamar o objeto pelo nome que o mercado usava havia um século.

O segundo movimento foi congelar o desenho. Capa preta, cantos arredondados, elástico, fita marcadora e bolso sanfonado entraram como assinatura fixa, sem coleção de temporada mexendo na silhueta.

O terceiro movimento foi embarcar o argumento junto com o produto. O folheto do bolso conta a linhagem do objeto, cita Van Gogh, Picasso, Hemingway e Chatwin, e chega à casa do comprador sem depender de anúncio pago.

A escolha de canal fechou a conta. Em vez de disputar o corredor de papelaria pelo menor preço, a empresa colocou o caderno em livraria e loja de museu, onde o cliente já tinha ido gastar dinheiro com cultura.

O crescimento veio em degraus curtos. Cinco mil unidades em 1997, 30 mil por ano em 1998, cerca de 20 milhões de euros de receita em 2000, exportação para o Japão em 2004 e presença em 95 países em 2012.

Em 2006 um fundo de private equity comprou a empresa e a produção deixou a Itália. Impressão e encadernação passaram para a China, com o mesmo desenho, o mesmo folheto no bolso e a mesma etiqueta de preço.

O risco vem colado no folheto. Marca que cobra pela origem é auditada pela origem, e a primeira pessoa que for conferir a linhagem impressa vai bater numa parte da história que a empresa não tem como provar.

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III  O Erro de Marca

A linhagem que nenhum documento sustenta

O erro: a empresa imprimiu como linhagem do próprio produto uma lista de nomes que nunca tocaram nesse produto. Van Gogh, Picasso e Hemingway usaram cadernos pretos de encadernador parisiense, não o caderno relançado em Milão em 1997.

O que custou: quem pagou por herança europeia encontrou, a partir de 2006, "encadernado e impresso na China" carimbado na mesma contracapa que guarda o folheto da tradição. A conversa saiu do papel e foi parar na honestidade da história.

O que ficou: a redação do folheto e do site foi suavizada para "herdeiro e sucessor do lendário caderno usado por artistas e pensadores dos últimos dois séculos", fórmula que reivindica descendência sem afirmar propriedade.

A diferença entre as duas frases é o caso inteiro. Dizer que Hemingway escreveu neste caderno é afirmação verificável e falsa, e dizer que este caderno é herdeiro do tipo que ele usava é afirmação que ninguém consegue derrubar.

O tipo existiu mesmo, e essa parte é documentada. Encadernadores de Paris vendiam carnets moleskines de capa emborrachada no fim do século 19 e começo do 20, objeto barato e comum entre quem escrevia e desenhava na rua.

O que não existe é o documento que liga aqueles nomes a esta empresa. Nenhum arquivo mostra Hemingway comprando produto de uma fabricante fundada em 1997, e a companhia nunca apresentou um em quase trinta anos.

A mudança de fábrica virou o segundo teste. Em agosto de 2006 os fóruns de usuários já comparavam capas com "projetado e embalado na Itália" e capas com "encadernado e impresso na China", com a etiqueta parada no mesmo valor.

Quem pagava pela linhagem entendeu o recado. O objeto continuava bom e a empresa continuava lucrativa, mas o folheto sobre dois séculos de tradição europeia passou a dividir a contracapa com um carimbo de origem que conta outra história.

O terceiro teste veio do uso. Quem comprou o caderno para escrever com caneta-tinteiro reclamou de tinta atravessando a página, e concorrentes como Leuchtturm1917 e Rhodia cresceram vendendo exatamente o papel que a Moleskine não prometia.

A régua está escrita desde 1981. Em Positioning, Al Ries e Jack Trout resumem que posicionamento não é o que se faz com o produto, é o que se faz com a mente de quem compra, e a Moleskine levou a frase ao limite.

O limite é o ponto em que a mente do comprador cobra a fatura. Enquanto a promessa é de qualidade, o teste é o uso; quando a promessa é de linhagem, o teste vira arquivo, e arquivo não aceita adjetivo no lugar de documento.

O erro custou credibilidade e não custou a empresa. A linha seguiu vendendo, o grupo belga pagou 506 milhões de euros em 2016 e a receita ficou na casa dos 122 milhões de euros em 2024, com o mesmo folheto no bolso.

O que ficou caro foi outra coisa. Marca que se apresenta como herdeira precisa sustentar a herança todo dia, e cada troca de fábrica, de papel ou de preço reabre a mesma pergunta na cabeça de quem paga a diferença.

"Quanto do preço que você cobra hoje está escrito num parágrafo que você ainda não conseguiu provar?"

 
 
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