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O cafeicultor inventado que deu nome ao café da Colômbia

Juan Valdez nasceu num anúncio de 1959, com chapéu e mula, para o comprador pedir o grão pela origem.

Cafeicultor de chapéu e poncho puxando uma mula numa encosta de cafezal na Colômbia.

Juan Valdez e a mula na encosta

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Aos 39 anos, o cafeicultor Carlos Castañeda deixou a lavoura da família em Andes, no interior de Antioquia, e foi a Bogotá fazer um teste de elenco em 2006. Ele disputava um papel que já tinha quase meio século: o de Juan Valdez, o camponês de bigode, chapéu e poncho que aparece puxando uma mula nos pacotes de café colombiano.

A seleção durou meses. A Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia, entidade que reúne os produtores do país desde 1927, só aceitava candidato que plantasse café de verdade. Ator profissional não servia.

Castañeda passou em provas de câmera, de entrevista e de conhecimento do ofício. Quem avaliava queria alguém capaz de falar de colheita, de secagem e de chuva fora de hora sem decorar texto.

O papel pedia pouco em fala e muito em presença. Juan Valdez quase não discursa nos comerciais. Ele caminha pela encosta, escolhe o grão maduro com a mão e carrega a saca no lombo da mula até a estrada.

Castañeda herdava o chapéu de Carlos Sánchez, outro cafeicultor de Antioquia, que tinha vestido o personagem desde 1969. Sánchez se aposentava depois de mais de três décadas representando um homem que nunca existiu.

A troca virou assunto nacional. Jornais colombianos acompanharam a escolha como se fosse a de um cargo público, e em certo sentido era. O rosto de Juan Valdez aparecia em anúncios, embalagens, cardápios de restaurante e numa rede inteira de cafeterias.

Tudo começou com um problema de venda muito mais antigo. Nos anos 1950, o café da Colômbia chegava aos Estados Unidos misturado com grãos de outros países, dentro de latas que exibiam o nome da torrefadora e nunca o nome da terra de origem.

O produtor colombiano via o próprio trabalho sumir no meio da mistura. Para o comprador americano, café era café, e o preço seguia a cotação da bolsa.

A saída encontrada pela Federação foi dar um rosto ao grão.

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I  O Prêmio de Marca

O rosto que tirou o grão do anonimato

Em 1958, a Federação contratou a agência Doyle Dane Bernbach, de Nova York, para mudar a forma como o americano via o café colombiano. O grão do país era arábica lavado, cultivado em montanha e colhido à mão, mas nada disso aparecia na lata.

A agência criou Juan Valdez, e a campanha foi ao ar em 1959. O primeiro a interpretar o personagem foi José F. Duval, ator cubano radicado nos Estados Unidos, que ficou no papel durante a década de 1960.

A escolha do personagem resolvia uma dificuldade de propaganda. Colheita manual em encosta íngreme é argumento de qualidade, mas é difícil de explicar num comercial de trinta segundos. Um homem com uma mula mostrava a ideia sem precisar de legenda.

Aqui entra o prêmio de marca (o valor a mais que o cliente paga por um nome em que confia). A Federação não vendia uma marca de lata. Vendia uma origem, e qualquer torrefadora que comprasse o grão podia usar o selo.

Juan Valdez transformou o país produtor em marca: o comprador passou a pedir café colombiano, e a torrefadora passou a ter motivo para pagar mais por ele.

A regra do selo era simples. Só podia estampar o nome Colômbia quem usasse grão 100% colombiano. Mistura com café de outro país perdia o direito ao rosto do camponês.

A lógica da campanha acompanhava uma escola de publicidade que tratava o comprador como gente capaz de entender um argumento. O publicitário David Ogilvy resumiu essa postura num livro que circulava pelas agências da época.

"The consumer isn't a moron; she is your wife." (O consumidor não é um idiota; é a sua esposa.)

David Ogilvy, Confessions of an Advertising Man, 1963

Juan Valdez seguia a mesma aposta. O anúncio mostrava o trabalho por trás do grão e confiava que o comprador faria a conta sozinho.

O triângulo de 1981

Em 1981, a Federação transformou o personagem num logotipo. O desenho mostra Juan Valdez e a mula diante de duas montanhas, dentro de um triângulo, com as palavras Café de Colombia embaixo.

O logotipo passou a ser licenciado para torrefadoras de vários países. Quem usava o triângulo aceitava a regra da origem única e a fiscalização da Federação, que podia retirar a licença de quem misturasse grãos.

 
 

II  O Movimento

Do anúncio ao balcão do aeroporto

Durante quatro décadas, Juan Valdez vendeu o café de outras empresas. A Federação cuidava da origem, e as torrefadoras ficavam com a relação direta com o cliente, a xícara servida e boa parte do lucro final.

No começo dos anos 2000, a conta pesava contra o produtor. O preço internacional do grão estava baixo, e as grandes redes de cafeteria cobravam caro por uma bebida feita, muitas vezes, com café colombiano.

A resposta foi levar o personagem para o balcão. Em 2002, a Federação criou a Procafecol, empresa que passou a operar cafeterias com a marca Juan Valdez Café.

A primeira loja abriu em dezembro de 2002, no aeroporto El Dorado, em Bogotá. O lugar tinha lógica: era a vitrine por onde passavam o turista estrangeiro e o colombiano que voltava de viagem.

O modelo de propriedade também foi pensado para a origem. Os cafeicultores entravam como sócios da Procafecol por meio da Federação e de um fundo ligado a ela, e uma parte do resultado das lojas voltava para quem plantava.

O movimento seguiu três passos que a rede manteve na expansão.

1. Começar em casa. As primeiras lojas ficaram na Colômbia, onde o personagem já era reconhecido na rua e o cliente sabia de onde vinha o grão. 2. Servir só grão do país. O cardápio usava café colombiano de regiões identificadas, com o nome da região no pacote vendido no balcão. 3. Levar o rosto junto. A fachada, o copo e o saco de café traziam Juan Valdez, para que a loja parecesse extensão do anúncio que o cliente já conhecia.

A cafeteria própria deu à Federação o que o selo nunca deu: o preço da xícara, e não só o preço da saca.

O personagem também mudou de função dentro da loja. No anúncio, ele representava o produtor distante. Na cafeteria, virou anfitrião, com cartazes contando a história da colheita a quem esperava o pedido.

A troca de intérprete em 2006 aconteceu com a rede já funcionando. Castañeda assumiu o chapéu viajando para inaugurações e feiras, e passou a representar ao mesmo tempo a campanha antiga e a loja nova.

A rede cresceu dentro da Colômbia e abriu unidades em outros países da América Latina, onde o nome do país ajudava a vender mais do que a moda da cafeteria.

 

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III  O Erro de Marca

As lojas longe demais da montanha

O erro: apostar que o personagem famoso na propaganda bastava para sustentar cafeterias caras em mercados onde a rede era desconhecida como loja.

O que custa: unidades fechadas fora do país e anos de prejuízo na Procafecol.

O que fica: reconhecer o rosto da embalagem não significa trocar a cafeteria de costume pela sua.

Nos anos seguintes à estreia, a Procafecol abriu lojas nos Estados Unidos e na Espanha, com endereços em Nova York e em Madri. O plano era levar a cafeteria para os mesmos mercados onde o anúncio de Juan Valdez tinha feito fama.

O cliente americano conhecia o personagem, mas já tinha hábito formado. A disputa acontecia com redes que ocupavam cada esquina, ofereciam cartão de fidelidade e tinham décadas de operação local.

A marca Juan Valdez tinha força como origem do grão. Como lugar para sentar e trabalhar com um copo na mão, precisava começar do zero, com aluguel de cidade grande e pouca escala.

Várias das lojas no exterior fecharam. A Procafecol passou anos com resultado negativo nos próprios balanços, e a Federação precisou revisar a estratégia. A empresa não detalhou em público quanto cada loja estrangeira pesou nas perdas, e por esse motivo não se sabe a conta exata de cada praça.

A correção veio pelo caminho de casa. A rede concentrou a expansão na Colômbia e em países vizinhos, passou a abrir unidades por franquia e a vender o café embalado em supermercados, onde o selo de origem já trabalhava sozinho.

O personagem saiu da crise intacto. Castañeda continuou nas campanhas, e o triângulo com a mula seguiu nos pacotes de torrefadoras do mundo inteiro.

Três perguntas antes de levar a marca para outro balcão

O episódio deixa um roteiro para qualquer marca que queira mudar de prateleira para loja própria.

1. O cliente me conhece pelo produto ou pela experiência de consumo? 2. Quem já ocupa o hábito dele no lugar onde vou abrir? 3. Tenho escala para pagar o aluguel enquanto o hábito não muda?

A Procafecol respondeu à primeira com otimismo e descobriu a resposta das outras duas com as lojas já abertas.

"Se o seu produto ganhasse um rosto amanhã, o cliente saberia dizer de onde ele vem?"

37 anos. Foi o tempo que o cafeicultor Carlos Sánchez vestiu o chapéu de Juan Valdez, de 1969 a 2006, segundo a Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia.

 
 
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