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O creme dental que perdeu o nome por 4 anos
Em 1997 a Colgate apagou da prateleira brasileira a Kolynos, dona de mais da metade do mercado de creme dental, por acordo com o CADE.
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A caixa amarela que trocou de nome
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Uma marca registrada é um papel. Tem número de processo, classe de produto, data de depósito e prazo de dez anos, renovável enquanto alguém pagar a taxa. No Brasil o papel sai do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, e vale pra um nome dentro de uma categoria só.
O papel pode ser vendido, alugado e dado em garantia como qualquer outro bem. Uma empresa compra o nome de outra, registra a transferência e passa a ser dona daquela palavra na prateleira, sem precisar mudar uma linha da fábrica.
Fábrica, caminhão e ponto de venda ocupam espaço no mundo. Dá pra contar, fotografar e entregar a chave. O nome não ocupa espaço nenhum e mesmo assim costuma ser a parte mais cara da conta.
Quando duas empresas grandes da mesma categoria se juntam, o órgão de defesa da concorrência entra pra medir o que sobrou de disputa. No Brasil o trabalho é do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o CADE, e a régua é a participação de mercado.
As saídas costumam ser físicas. Vender uma fábrica, abrir mão de uma linha de produto, liberar contrato com distribuidor: o comprador devolve um pedaço do que comprou e o concorrente ganha por onde entrar.
Existe uma saída que não é física. O órgão pode mandar o comprador parar de usar o nome por um prazo, com o registro guardado, sem venda e sem licença, como carta fora do baralho.
A ordem parece cirúrgica no papel. Some a palavra da caixa, o cliente perde a referência de sempre e o concorrente ganha uma janela pra ocupar o lugar antes que alguém se acostume com outra coisa.
O teste da ordem é o que o comprador faz com o resto. Fórmula, embalagem, preço, fila de caminhão e espaço na gôndola continuam nas mãos dele, e nada no acordo obriga a mexer em nenhum deles.
A marca do dia é a Kolynos, apagada da prateleira brasileira por quatro anos num acordo com o CADE. A conta começa medindo o tamanho do prêmio que estava dentro daquele nome antes de alguém encostar nele.
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I O Prêmio de Marca
Metade da gôndola num nome só
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Duas caixas de creme dental na mesma gôndola, o mesmo peso, o mesmo flúor declarado no verso, e uma diferença de preço que a Kolynos cobrava sem precisar explicar. O prêmio dela não vinha do tubo, vinha de seis décadas de repetição dentro da casa do brasileiro.
Em 1995 a Kolynos tinha mais da metade do mercado brasileiro de creme dental, com participação em torno de 52%. Nenhuma outra marca da categoria chegava perto, e a liderança já era antiga quando a conta começou a ser feita.
O produto em si é dos mais simples do mercado. Água, um abrasivo leve, umectante, detergente, aroma e flúor na dosagem que a norma manda: o custo do tubo cabe em centavos, e a fábrica que enche é igual à de qualquer marca de mercado.
O preço na prateleira contava outra história. A Kolynos ficava acima das marcas de mercado e das regionais no mesmo peso de tubo, e mesmo assim girava mais que todas as concorrentes somadas.
Creme dental é compra de repetição e de decisão curta. O comprador leva a mesma caixa por anos, resolve em poucos segundos na frente da gôndola e quase nunca compara a lista de ingredientes de duas marcas.
A estrutura por trás do preço era antiga. A marca chegou ao Brasil no fim dos anos 1920, virou fábrica em São Paulo e entrou em armazém, farmácia e mercearia de cidade pequena muito antes de existir supermercado no país.
O nome tinha virado a categoria. Em boa parte do país pedir um Kolynos era pedir creme dental, do mesmo jeito que se pede um Gillette pra falar de lâmina, e o pedido não passava por comparação de rótulo.
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O prêmio da Kolynos nunca esteve dentro do tubo. Estava no gesto de pegar a caixa amarela sem ler o verso de nenhuma outra.
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O tamanho do prêmio apareceu em dinheiro em setembro de 1995. O grupo americano American Home Products vendeu a Kolynos da América Latina para a Colgate-Palmolive por 1,04 bilhão de dólares, e o Brasil era o principal ativo do pacote.
A compradora já estava na mesma prateleira. A Colgate tinha em torno de um quarto do mercado brasileiro de creme dental, e a soma das duas passava de três quartos da categoria num dono só.
Mais da metade da gôndola, preço acima da prateleira inteira e um nome de seis décadas é o retrato de uma marca no topo. O que veio depois não começou na propaganda, começou numa sala de julgamento em Brasília.
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II O Movimento
Um nome novo dentro da caixa de sempre
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O movimento não foi trocar o produto, foi trocar a palavra na frente dele. A Colgate aceitou tirar a Kolynos da prateleira brasileira por quatro anos e lançou o Sorriso com a mesma fórmula, o mesmo sabor e a mesma caixa, no mesmo lugar da gôndola.
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O julgamento veio antes da troca. O CADE analisou a compra no processo aberto em 1995 e decidiu em setembro de 1996 que a operação só passaria com contrapartida, porque o comprador ficaria com quase quatro de cada cinco tubos vendidos no país.
A decisão ofereceu três saídas. Vender a marca Kolynos para um concorrente, licenciar o nome para um terceiro por vinte anos, ou suspender o uso da marca no Brasil por quatro anos, com o registro parado no armário.
A Colgate escolheu a terceira. Guardar o nome por quatro anos custava menos que entregar a palavra para alguém que iria usá-la contra ela na mesma gôndola, e o registro voltava para as mãos da dona no fim do prazo.
O calendário ajudou o gesto. A empresa teve meses entre a decisão e a virada pra avisar loja, distribuidor e cliente, e a caixa nova chegou junto com o fim da antiga, sem intervalo de prateleira vazia.
A troca foi para a rua em janeiro de 1997. O Sorriso entrou com o mesmo amarelo dominante na caixa, a mesma diagramação e o mesmo preço, e a empresa avisou em campanha que a fórmula e o sabor continuavam iguais.
Nada no acordo tocava no resto. A fábrica continuou a mesma, o caminhão saía do mesmo galpão, o vendedor visitava o mesmo mercado e o espaço na gôndola era o mesmo espaço, agora com outra palavra impressa.
A mudança foi tratada como troca de nome, não como lançamento. Marca nova pede prova de produto, degustação, promoção e amostra grátis; a caixa nova pedia só que o cliente reconhecesse o lugar de sempre e continuasse pegando a mesma coisa.
O nome antigo continuou vivo do lado de fora. Kolynos seguiu à venda em países vizinhos durante o prazo inteiro, na Argentina, no Paraguai e no Equador, com a mesma caixa que tinha sumido do Brasil.
A transição foi a maior já feita na categoria dentro do país. Uma marca com mais da metade do mercado trocou de nome de uma vez, em todo o território, e a empresa apostou que o cliente comprava o conjunto e não a palavra.
A Colgate pagou mais de 1 bilhão de dólares por um nome e aceitou não escrever esse nome em lugar nenhum por quatro anos.
O acordo tirou da prateleira a única parte da compra que dava pra apagar por escrito. Quem entrou na farmácia em 1997 encontrou a caixa de sempre, com a palavra nova na frente e o mesmo tubo dentro.
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