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O dia em que a Marmite sumiu do site da Tesco

Em outubro de 2016, a Unilever pediu cerca de 10% a mais pela pasta de levedura, a Tesco disse não e o pote virou manchete no Reino Unido.

Pote de Marmite com rótulo amarelo e a panela desenhada, sobre torrada com manteiga.

O pote marrom que sumiu do site

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Aos 51 anos, o executivo inglês Dave Lewis, presidente da rede de supermercados Tesco, recebeu em outubro de 2016 uma lista de reajustes da Unilever, a dona anglo-holandesa da Marmite, do chá PG Tips e da maionese Hellmann's. A fornecedora queria cobrar cerca de 10% a mais por uma série de produtos, cifra publicada pelo Financial Times naquela semana.

A justificativa vinha do câmbio. Desde o referendo de junho que aprovou o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), a libra descia sem parar, e na segunda semana de outubro tocou o menor valor contra o dólar em 31 anos, segundo a agência Reuters. A Unilever pagava parte de ingredientes, embalagens e energia em moeda estrangeira e queria repassar a conta ao varejo.

A Tesco, maior varejista do país, recusou. Na quarta-feira, 12 de outubro, clientes que abriam o supermercado online da rede procuravam Marmite, sorvete Ben & Jerry's, macarrão instantâneo Pot Noodle e sabão Persil, e encontravam a mensagem de produto indisponível.

Os britânicos descobriram a briga pelo pote marrom. Em poucas horas, a hashtag #Marmitegate (o sufixo de escândalo que a imprensa inglesa cola em qualquer confusão desde Watergate) liderava o Twitter no país, e jornais que nunca tinham escrito sobre negociação entre fornecedor e supermercado abriam a página com um frasco de pasta de levedura.

A Tesco soltou uma nota curta falando em problemas de disponibilidade. A Unilever não comentou os preços em público. Na quinta-feira, 13, as duas empresas anunciaram um acordo e os produtos voltaram ao site. Nenhuma delas contou quem cedeu, e os termos seguem guardados até hoje.

Dos produtos que saíram da loja online, o apelido do caso ficou com a Marmite, uma pasta salgada que custava poucas libras o pote. A primeira seção mostra o que aquele frasco tinha acumulado em 114 anos para virar o rosto de uma disputa de preços entre duas gigantes.

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I  O Prêmio de Marca

Um pote que divide o país

A Marmite nasceu em 1902 em Burton upon Trent, cidade cervejeira do centro da Inglaterra, onde a Marmite Food Extract Company passou a aproveitar a levedura que sobrava das cervejarias locais. A base científica vinha do químico alemão Justus von Liebig, que no século 19 mostrou que a levedura usada na fermentação podia ser concentrada e comida.

O produto final é uma pasta escura, grudenta e muito salgada, passada em camada fina sobre torrada com manteiga. O nome vem de marmite, a panela francesa de cozinhar caldo, desenhada até hoje no rótulo do pote bojudo.

O primeiro trunfo da marca foi a saúde. Durante a Primeira Guerra, a pasta entrou na ração de soldados britânicos pela vitamina B. Em 1931, a médica inglesa Lucy Wills usou Marmite para tratar anemia em operárias grávidas de Bombaim, na Índia, e a pesquisa dela abriu caminho para a descoberta do ácido fólico.

O segundo trunfo foi a infância. Gerações de britânicos comeram Marmite no café da manhã da escola, e o gosto forte virou lembrança de casa. Quem sai do país costuma levar um pote na mala, porque a pasta quase não aparece em supermercado estrangeiro.

Uma marca que metade do país rejeita e a outra metade defende tem torcida garantida em qualquer briga pública. A Tesco mexeu justamente nesse pote.

O terceiro trunfo veio da publicidade. Em 1996, a agência BMP DDB, de Londres, assumiu o que qualquer fabricante esconde: muita gente detesta o produto. A campanha mostrava reações de nojo ao lado de fãs apaixonados e cravou o bordão que ficou colado ao pote.

"Você ama ou odeia."

BMP DDB, campanha da Marmite, 1996

O bordão transformou o gosto polêmico em identidade. Dizer que odeia Marmite virou forma de participar da marca, e a expressão "é uma Marmite" passou a descrever, no inglês britânico, qualquer pessoa ou ideia que divide opiniões.

O quarto trunfo era de dono. A Unilever herdou a Marmite em 2000, quando comprou a americana Bestfoods, e manteve a fábrica em Burton. Uma empresa com centenas de marcas passou a ter, no meio delas, um símbolo nacional que o consumidor tratava como patrimônio da família.

Por isso o sumiço do sorvete ou do sabão rendeu pouca conversa. O pote de Marmite deu à briga um rosto que qualquer britânico reconhecia na hora.

 
 

II  O Movimento

Vinte e quatro horas de prateleira vazia

A disputa acabou rápido, e cada passo das duas empresas ajudou a encurtar a crise.

1. Tirar só do site. A Tesco suspendeu os produtos da Unilever na loja online e deixou nas gôndolas físicas o estoque que já estava lá. O cliente da loja de bairro quase não sentiu; o de internet viu o buraco. 2. Falar pouco. A nota da Tesco falou em disponibilidade e não citou preço, câmbio nem fornecedor. Nenhum executivo deu entrevista durante a crise. 3. Negociar longe da imprensa. A conversa sobre o reajuste correu entre as equipes comerciais das duas empresas, sem vazamento de proposta ou contraproposta. 4. Anunciar junto e sem número. O acordo saiu em cerca de um dia, com declaração curta e nenhuma cifra.

O passo que segurou a crise foi o segundo. Com o preço fora da nota, a Tesco evitou virar a vilã que cobra mais do cliente, e a Unilever evitou virar a vilã que cobra mais da Tesco.

"Estamos satisfeitos em confirmar que resolvemos o problema com a Unilever e todos os produtos estarão disponíveis nas lojas e online normalmente."

Porta-voz da Tesco, comunicado à imprensa, 2016

A pressa tinha calendário. A briga caiu na mesma semana em que a Unilever divulgou os resultados do terceiro trimestre, e o diretor financeiro Graeme Pitkethly confirmou a analistas que a empresa ia subir preços no Reino Unido para compensar a libra fraca.

As ações da Tesco e da Unilever oscilaram durante a disputa, e analistas de varejo passaram a usar o caso como termômetro. Se a maior rede do país resistia a um reajuste do maior fornecedor, as redes menores teriam menos força ainda na mesa.

Sainsbury's e Asda, concorrentes diretas da Tesco, negociaram com a Unilever sem tirar nada do site. O consumidor nunca soube quanto essas redes aceitaram pagar, porque nenhuma delas levou a conversa a público.

Para quem vende a um grande varejista, o movimento a copiar é o quarto. Quando a disputa escapa para a imprensa, o acordo precisa sair assinado pelas duas partes, no mesmo dia e com a mesma frase, para que nenhuma pareça derrotada.

 

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III  O Erro de Marca

O pote feito em Burton e cobrado em dólar

O erro: justificar um reajuste de produto fabricado na Inglaterra com a queda da libra, sem explicar ao público que parte dos custos da fábrica era paga em moeda estrangeira.

O que custa: o consumidor leu a notícia e fez a conta mais simples: levedura inglesa, fábrica inglesa, preço em libra. O argumento do câmbio pareceu desculpa, e a Unilever ganhou fama de oportunista numa semana de humor nacional ruim.

O que fica: o apelido Marmitegate grudou no caso, e o pote que a empresa gastou décadas para tornar querido virou o símbolo da inflação pós-Brexit nas manchetes.

O segundo erro foi escolher a vitrine errada para a briga. A Unilever colocou o aumento na mesa da Tesco sem preparar o terreno com o público, e a rede usou a própria loja online como alto-falante. O fornecedor perdeu o controle da história no momento em que o site mostrou o buraco.

O terceiro erro foi a lista. O reajuste valia para dezenas de marcas, mas o público só reconheceu a mais afetiva. Quanto mais amada a marca, mais caro sai colocá-la na linha de frente de uma negociação de preço.

"A decisão mais importante na avaliação de um negócio é o poder de preço."

Warren Buffett, depoimento à Comissão de Investigação da Crise Financeira dos EUA, 2010

Buffett falava de poder de preço (a capacidade de subir o valor cobrado sem perder cliente). A Marmite tinha esse poder diante do consumidor, mas a Tesco controlava a porta de entrada e mostrou que o poder da marca para na prateleira de quem vende.

Os termos do acordo nunca foram publicados pela Unilever nem pela Tesco, e por isso ninguém fora das duas empresas sabe quanto do reajuste passou. Nos meses seguintes, porém, preços de alimentos embalados subiram nos supermercados britânicos, e a Unilever manteve o discurso de repasse do câmbio.

Três perguntas testam qualquer reajuste antes de chegar ao varejista:

1. O cliente final entende o motivo do aumento numa frase? 2. A marca mais querida da lista precisa mesmo entrar na primeira rodada? 3. A empresa sabe o que faz se o produto sumir da vitrine por um dia?

A Unilever respondia não às três em 2016. Dave Lewis deixou a presidência da Tesco em 2020, e a Marmite continua saindo da fábrica de Burton upon Trent.

"Se o seu produto sumisse do maior cliente amanhã, alguém sentiria falta dele?"

24 horas. Foi quanto a Marmite ficou fora do supermercado online da Tesco, entre os dias 12 e 13 daquele outubro, segundo a cobertura da BBC em 2016.

 
 
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