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O Johnnie Walker que cobra mais sem dizer a idade

Em 1992, o rótulo azul chegou ao topo da escada sem número de anos. No lugar da idade, cada garrafa trazia um número de série.

Garrafa quadrada de Johnnie Walker Blue Label com rótulo azul inclinado, e a caixa forrada.

O rótulo azul no topo da escada

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Aos 23 anos, o merceeiro escocês Alexander Walker trocou, em 1860, a garrafa redonda do uísque da família por uma quadrada, com o rótulo colado em diagonal. A forma nova cabia mais unidades por caixote e quebrava menos nos porões dos navios.

O pai dele, John Walker, tinha aberto a mercearia em Kilmarnock, no sudoeste da Escócia, em 1820. Vendia chá, açúcar, especiarias e um blend (mistura de uísques de várias destilarias) que levava o nome da casa.

Em 1909, a família deu cor aos rótulos. O blend mais simples ganhou etiqueta vermelha; o mais velho, preta. Nascia a escada da marca: cada cor, um degrau de preço.

Por oito décadas, a escada teve poucos degraus, e quem subia usava a idade como prova. O Black Label trazia 12 anos no rótulo, e o número justificava a conta.

Em 1992, a United Distillers, a empresa dona da marca na época, lançou um degrau novo no topo. A garrafa continuava quadrada, o rótulo seguia inclinado, e a cor era azul.

O Johnnie Walker Blue Label chegou sem número de anos. Nenhuma idade impressa, nenhuma promessa de tempo de barril.

No lugar da idade, cada garrafa trazia um número de série próprio, e o conjunto vinha numa caixa forrada, pronto para virar presente.

A aposta parecia arriscada. No uísque escocês, o número de anos era o argumento mais fácil de entender para quem pagava caro, e a marca abria mão dele justo no produto mais caro.

A United Distillers contava com a cor e a numeração para dizer o resto. O cliente que conhecia o Red Label do bar e o Black Label do aniversário entendia sozinho que o azul ficava acima dos dois.

A escada inteira cabia numa prateleira, e o degrau mais alto aproveitava a fama de todos os de baixo. Faltava explicar ao cliente por que um uísque sem idade podia custar tanto.

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I  O Prêmio de Marca

O preço que dispensou os anos

O Johnnie Walker Blue Label resolveu a idade por um caminho de regra. Pela lei do uísque escocês, o número de anos impresso no rótulo de um blend tem de ser o do uísque mais jovem da mistura.

Uma garrafa com destilados de 40 anos e uma pequena dose de 15 só pode declarar 15. Para um blend feito de barris muito velhos e alguns mais novos, escrever a idade puxaria o preço para baixo.

A marca escolheu não escrever número nenhum. Assim, o mestre misturador (o profissional que prova os barris e decide a receita) ficava livre para usar qualquer uísque que desse o sabor buscado, sem que a idade do mais novo aparecesse na garrafa.

Aqui entra o prêmio de marca (o valor a mais que o cliente paga por um nome em que confia). Sem idade para comparar, o comprador não tinha como medir o líquido contra o de outra garrafa. Restava confiar no nome Johnnie Walker e na cor do rótulo.

A Diageo, a empresa que herdou a marca, descreve o Blue Label como uma mistura de barris raros e afirma que só 1 em cada 10.000 barris guardados por ela tem o perfil exigido. O número vem da própria empresa e nunca foi auditado de fora.

O Blue Label cobra pela escolha do barril, que ninguém vê, e pela posição na escada, que todo mundo vê.

Parte dos barris raros vem de destilarias que fecharam as portas, como Brora e Port Ellen, encerradas em 1983. Quando um barril desses acaba, não existe outro igual, e a raridade passa a ser literal.

O preço acompanhou a proposta. O Blue Label foi lançado na faixa dos uísques de colecionador, muitas vezes acima do Black Label, e se manteve ali em lojas de aeroporto, onde a caixa forrada funciona como vitrine.

O número que substituiu a idade

O número de série gravado em cada garrafa fazia duas tarefas. Dava ao comprador a sensação de levar uma peça única, e ajudava a marca a rastrear lotes num mercado cheio de falsificações.

A caixa completava o gesto. Quem recebia um Blue Label de presente via, antes de abrir, que o objeto custava caro, e quem dava sabia que o outro ia perceber.

 
 

II  O Movimento

A escada de cores numa prateleira só

O Blue Label funcionou porque a escada já existia. A família Walker vinha treinando o cliente a ler cor como preço desde 1909, e o rótulo azul só precisou ocupar o lugar mais alto.

Em 1997, a Guinness, dona da United Distillers, se fundiu com a Grand Metropolitan e formou a Diageo. A nova empresa herdou a escada e passou a empurrar cada cliente um degrau acima.

O movimento seguiu três passos.

1. Dar a cada degrau uma cor e um preço fixos. Red Label para o bar e o drinque, Black Label para a ocasião, e os rótulos do meio, como o Green Label e o Gold Label, preenchendo o caminho.

2. Deixar o topo sem idade. O Blue Label ficou fora da conta de anos que guiava os degraus de baixo, e assim nenhuma idade conseguia superá-lo.

3. Contar a escada como jornada. Em 1999, a agência londrina Bartle Bogle Hegarty criou o slogan "Keep Walking" (continue andando), que ligava a marca à ideia de progresso pessoal.

O slogan se apoiava num desenho antigo. O homem de cartola que caminha no logotipo, o Striding Man (o homem que anda a passos largos), foi desenhado em 1908 pelo cartunista inglês Tom Browne.

Com o "Keep Walking", o homem que anda passou a representar o próprio cliente. Subir de rótulo virou sinal de que a vida tinha melhorado, e cada cor marcava uma etapa.

O desenho mudou de direção ao longo das décadas. Na versão atual, o homem caminha para a direita, o sentido de leitura do rótulo, e o movimento acompanha o olho de quem passa pela prateleira.

O topo azul fechava a história. Quem comprava o Blue Label comprava o último degrau, aquele que dispensava explicação.

A escada transformou a cor do rótulo num marcador de status: o cliente sabia o preço sem olhar a etiqueta.

A estratégia tinha outra vantagem. A fama do Blue Label voltava para os degraus de baixo, e o Red Label passava a ser a porta de entrada de uma marca que também vendia luxo.

A escada também deixava a marca crescer para os dois lados. A Diageo podia lançar edições especiais acima do Blue Label, numeradas e mais caras, sem desmontar a ordem das cores que o cliente já sabia de cor.

 

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III  O Erro de Marca

O degrau verde que sumiu e voltou

O erro: mexer na escada inteira de uma vez, cortando um degrau e tirando a idade de outro.

O que custa: o cliente fiel perdeu o rótulo que comprava e passou a desconfiar da ordem das cores.

O que fica: a Diageo voltou atrás nos dois casos, e a escada ganhou de novo a idade nos degraus do meio.

O Green Label tinha surgido na década de 1990 como um blended malt (mistura só de uísques de cevada maltada, sem uísque de grão), com 15 anos no rótulo. Era o degrau dos apreciadores, mais barato que o Gold e diferente no sabor.

Em 2012, a Diageo retirou o Green Label da maioria dos mercados. Junto com o corte, trocou o Gold Label de 18 anos pelo Gold Label Reserve, sem idade, e lançou o Platinum Label, de 18 anos, um degrau acima.

A lógica da empresa era copiar o Blue Label. Se o topo vendia sem idade, os degraus do meio também poderiam vender.

A conta falhou porque o gesto do topo dependia da exceção. O Blue Label dispensava a idade por ser o único degrau sem ela; quando outros rótulos fizeram o mesmo, o cliente perdeu a referência que separava cada cor.

Os fãs do Green Label reclamaram em fóruns e lojas especializadas, e o rótulo verde virou item de garimpo. Em 2016, a Diageo relançou o Green Label nos Estados Unidos e no Reino Unido, de novo com 15 anos.

Em 2017, a empresa aposentou o Platinum Label e pôs no lugar dele o Johnnie Walker Aged 18 (envelhecido 18 anos), com a idade no nome. O Blue Label seguiu como estava desde 1992, sem número de anos.

Três perguntas antes de tirar a prova do rótulo

O caso deixa um roteiro para qualquer marca com linha de produtos em degraus.

1. O degrau que perde a prova tem outro motivo para custar o que custa?

2. O cliente ainda consegue ordenar os produtos sem ler a etiqueta?

3. A exceção do topo continua exceção depois da mudança?

A primeira pergunta separa o Blue Label do Gold Label Reserve. O azul tinha a raridade dos barris e o número de série para sustentar o preço; o dourado sem idade tinha só a cor, e a cor sozinha não convenceu quem já pagava pelo 18 anos.

A terceira pergunta pesa mais. O Blue Label só cobra caro sem idade enquanto for o único que pode fazer assim.

"Que prova o seu produto mais caro já pode dispensar?"

1 em cada 10.000 barris. É a proporção que a Diageo diz separar para o Johnnie Walker Blue Label, segundo a própria empresa.

 
 
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Quiz da edição

Em 1992, com a idade fora do rótulo, o que cada garrafa do Johnnie Walker Blue Label trazia no lugar dela?

AA idade do barril mais novo da mistura
BO ano de fundação da mercearia em Kilmarnock
CUm número de série próprio
DO nome do mestre misturador que criou a receita

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