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O Kit Kat virou amuleto de vestibular no Japão

Em japonês, o nome do chocolate soa como uma promessa de vitória, e a Nestlé transformou a barra num cartão-postal de boa sorte.

Caixa de Kit Kat com selo e endereço, pronta para o correio.

O Kit Kat virou cartão-postal em 2009

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Aos 49 anos, o executivo Kohzoh Takaoka comandava em 2009 o negócio de chocolates da Nestlé no Japão e tinha nas mãos uma barra com fama de talismã.

A barra era o Kit Kat, quatro dedos de wafer cobertos de chocolate ao leite, criada na Inglaterra em 1935 pela fábrica Rowntree, de York. No Japão, ela vendia mais em janeiro e fevereiro, meses de prova de admissão nas universidades.

O motivo estava no nome. Pronunciado à japonesa, o nome vira “kitto katto”, e a sonoridade lembra a expressão “kitto katsu” (algo como “vai vencer com certeza”).

Estudantes começaram a trocar a barra entre si como desejo de boa sorte. Pais compravam para os filhos, avós mandavam pelo correio, professores entregavam na porta da sala antes da prova.

A Nestlé não inventou a superstição. Os relatos da própria empresa contam que ela nasceu entre os alunos, na ilha de Kyushu, no sul do país, e que o time de marketing só percebeu o padrão quando olhou as vendas por região e por mês.

Takaoka e sua equipe decidiram empurrar o costume na direção da marca. Em 2009, a Nestlé fechou um acordo com o Japan Post (os Correios japoneses) e lançou o Kit Mail, uma caixa de Kit Kat com espaço para endereço, selo e recado escrito à mão.

A embalagem saía do balcão da agência e chegava à casa do vestibulando como um cartão-postal. Ninguém precisava de envelope. O chocolate viajava sozinho, com a promessa de vitória impressa na frente.

O vestibular japonês pesa na vida de uma família. A universidade em que o filho entra decide parte da carreira, e o país inteiro acompanha a temporada de provas como acompanha uma eleição.

Uma barra de chocolate de preço baixo entrou nesse calendário como amuleto. E um nome escolhido por uma fábrica inglesa nos anos 1930 virou, sem querer, uma frase de torcida em outro idioma.

Por que o cliente japonês paga por um desejo de boa sorte embrulhado em wafer, e quanto a marca ganha com essa sonoridade, você lê na primeira faixa logo abaixo.

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I  O Prêmio de Marca

Um chocolate com som de vitória

A resposta de ontem

Qual arquiteta do Pritzker desenhou uma Melissa em 2008?

Foi Zaha Hadid, arquiteta iraquiano-britânica que venceu o Prêmio Pritzker em 2004. A Melissa + Zaha Hadid chegou às lojas em 2008: um sapato de plástico injetado com curvas contínuas, desenhado como as fachadas dos prédios dela. A parceria ganhou novas versões nos anos seguintes.

Kit Kat se fabrica no mundo inteiro com a mesma receita base. No Japão, a barra ganhou um papel extra: ela carrega um voto de sucesso, e o comprador paga por ele.

Aqui entra o prêmio de marca (o valor extra que o cliente aceita pagar por um nome em que confia). No caso japonês, o nome entrega algo mais raro que confiança: ele entrega um recado pronto.

Quem dá um Kit Kat a um estudante não precisa escrever nada. A embalagem já diz a frase. O chocolate funciona como um omamori (o amuleto de pano vendido nos templos japoneses), só que comestível e vendido na loja de conveniência.

O amuleto de templo custa caro e exige uma visita. A barra custa pouco e está em toda esquina. Esse acesso fácil multiplicou o gesto entre colegas, vizinhos e parentes distantes.

O nome que nenhum concorrente copia

Uma marca rival pode imitar o wafer, a cobertura e o formato em dedos. Ela não consegue imitar o som do nome. O trocadilho pertence a quem registrou a palavra, e o registro é da Nestlé desde a compra da Rowntree, em 1988.

Até 1988, a barra chegava às lojas japonesas pelas mãos da confeitaria Fujiya, que produzia o Kit Kat no país sob licença desde 1973. A Nestlé herdou a marca e, com ela, a coincidência fonética.

O comprador japonês paga pelo recado que o nome entrega, e o chocolate vem junto.

A empresa passou a desenhar a embalagem de temporada para reforçar o recado. As caixas de época de prova trazem espaço para mensagem, cores de festa e frases de incentivo impressas.

O santuário completou a imagem. Em algumas temporadas, a Nestlé levou barras a templos xintoístas (os santuários da religião tradicional do Japão) para receberem bênção antes de chegar às lojas.

O resultado aparece no calendário de vendas. A barra deixou de depender só da vontade de comer doce e passou a depender também de uma data fixa do ano, repetida por toda geração que presta vestibular.

O prêmio de marca do Kit Kat no Japão mora nessa data. Toda temporada de provas cria uma nova turma de clientes que compra a barra pelo nome.

 
 

II  O Movimento

A barra que viajava com selo

O Kit Mail chegou às agências do Japan Post em 2009. A ideia transformava o próprio correio em ponto de venda e em canal de entrega.

O acordo resolveu um problema da superstição. O estudante que mais precisava do amuleto morava, muitas vezes, longe da família, numa cidade grande, num quarto alugado perto do cursinho. A barra precisava viajar.

O correio japonês tinha uma rede de agências que alcançava vilas onde nenhuma loja de conveniência chegava. Para a Nestlé, entrar nesse balcão significava estar presente nos lugares onde a avó do vestibulando ia pagar as contas.

O caminho do Kit Mail cabia em quatro passos.

1. Comprar a caixa no balcão da agência.

2. Escrever o recado no espaço reservado da embalagem.

3. Colar o selo e preencher o endereço.

4. Postar na hora, sem envelope e sem papel de presente.

O cliente transformava o chocolate num cartão personalizado em poucos minutos. O correio vendia um produto que movimentava o próprio serviço. A Nestlé ganhava uma prateleira nova, sem concorrente de chocolate ao lado.

Os sabores de cada província

A empresa ampliou o gesto com sabores regionais. O Kit Kat de chá verde matcha (o pó de chá verde moído usado na cerimônia do chá) virou um dos mais conhecidos, e vieram outros ligados a cidades e províncias, como morango de Tochigi e batata-doce de Okinawa.

Cada sabor regional virou lembrança de viagem. O turista levava a caixa da província visitada para a família, e a barra entrava em outra tradição japonesa, a do omiyage (o presente trazido de uma viagem para quem ficou em casa).

A Nestlé ligou o Kit Kat a dois hábitos japoneses de presentear, a torcida no vestibular e a lembrança de viagem.

Em 2014, a marca abriu em Tóquio a primeira loja KitKat Chocolatory, com receitas assinadas pelo confeiteiro japonês Yasumasa Takagi. A barra popular ganhou vitrine de doceria fina, com caixas numeradas e edições de poucos dias.

A loja de Tóquio virou destino de turista estrangeiro, que saía com sacolas de sabores impossíveis de achar no próprio país. A barra de esquina passou a ter endereço de peregrinação.

O movimento manteve a lógica do Kit Mail: colocar a barra em lugares onde chocolate comum não entrava, e dar a cada lugar um motivo próprio para a compra.

 

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III  O Erro de Marca

O orangotango no comercial

O erro: tentar apagar uma crítica pública e deixar a marca refém da própria reação.

O que custa: o cliente passa a lembrar do ataque quando vê o nome.

O que fica: quem responde a uma crítica com censura multiplica a crítica.

Em março de 2010, a organização ambientalista Greenpeace publicou um vídeo contra o Kit Kat. No filme, um funcionário de escritório abria a barra e mordia um dedo de orangotango, no lugar do wafer.

A acusação mirava o óleo de palma. O Greenpeace afirmava que a Nestlé comprava o óleo de fornecedores ligados à derrubada de florestas na Indonésia, onde vivem os orangotangos.

A primeira reação da Nestlé piorou o caso. A empresa pediu ao YouTube a retirada do vídeo, alegando uso indevido da marca. O filme saiu do ar e reapareceu em outros sites, agora com a história da tentativa de censura junto.

A página da Nestlé no Facebook virou campo de batalha. Usuários trocaram a foto de perfil por versões alteradas do logotipo do Kit Kat, e respostas ríspidas de quem cuidava da página espalharam a briga ainda mais.

A virada em dois meses

Em maio de 2010, a Nestlé anunciou um compromisso de cortar da sua cadeia de compras os fornecedores ligados ao desmatamento e passou a trabalhar com a ONG The Forest Trust (uma organização de auditoria florestal) para rastrear a origem do óleo.

O Greenpeace encerrou a campanha. A marca saiu do episódio com o compromisso público, mas o vídeo do orangotango seguiu circulando por anos como caso de estudo de comunicação de crise.

O Japão ajuda a medir o erro. No mercado japonês, a barra ganhou valor porque os clientes escreveram uma história nela. Na crise de 2010, a empresa tentou arrancar das mãos do público uma história que o público já estava contando.

A lição vale para qualquer marca com nome forte. O mesmo nome que vira amuleto também vira alvo. Quando o público se apropria da marca, para o bem ou para o mal, a empresa só controla a resposta.

Três perguntas para quem tem nome forte

1. A sua marca sabe de onde vem cada matéria-prima que carrega o nome?

2. Quem responde aos clientes nas redes tem regra escrita para crise?

3. A resposta a uma crítica corrige o problema ou tenta esconder o vídeo?

Dois meses. Foi o tempo entre o vídeo do Greenpeace, em março de 2010, e o compromisso da Nestlé contra o desmatamento, anunciado em maio do mesmo ano, segundo a própria Nestlé.

 
 
Quiz da edição

Em que ano a Nestlé fechou parceria com o Japan Post e lançou o Kit Mail, a caixa de Kit Kat com espaço para selo e endereço?

A1973
B2009
C1988
D2014

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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