|
O erro: a empresa alugou o escudo para categorias que a estrada não sustentava. Perfume, loção pós-barba, bebida gelada à base de vinho, kit de decoração de bolo, gravata e roupa de bebê saíram com o nome da fábrica de moto no rótulo.
O que custou: o cliente que tatua o escudo não aceita ver o mesmo desenho num frasco de perfumaria. Cada categoria sem relação com pilotagem levava um pedaço da razão pela qual a etiqueta da moto podia pedir mais.
O que ficou: a própria empresa admitiu depois que colocou o nome onde não devia, e o licenciamento foi fechado em categorias que tocam a moto e a pilotagem: roupa, acessório, peça, brinquedo e item de coleção.
O caso mais desconfortável é o do cigarro. Em 1987 a Lorillard lançou o cigarro Harley-Davidson sob licença, atrás da imagem americana da marca, e a parceria terminou em processo judicial dos dois lados no começo dos anos 90.
A fabricante de tabaco manteve por contrato o direito de usar o nome até o começo dos anos 2000, e em 1998 rebatizou o produto como Maverick. A fábrica de moto levou anos para tirar o próprio escudo de um maço.
A régua está escrita. Em As 22 Consagradas Leis de Marcas, de 1998, Al Ries e Laura Ries registram que a força de uma marca é inversamente proporcional à sua abrangência, porque cada categoria nova enfraquece o significado que fazia a primeira funcionar.
A tentação é fácil de entender. Licença é receita de margem alta, sem fábrica, sem estoque e sem risco aparente, e o cheque entra no mesmo trimestre em que o contrato é assinado.
A conta chega depois e em outro lugar. O prêmio da moto vive da promessa de uma coisa só, e cada frasco com o escudo na prateleira de perfumaria dilui a promessa que sustenta a etiqueta.
O teste cabe numa pergunta. A categoria nova consegue ser defendida pelo mesmo motivo que faz o cliente pagar a mais na categoria original? Se a resposta exige explicação longa, o contrato não deveria ser assinado.
Vale reparar em quem decide. Quando o pedido de licença é avaliado pelo tamanho do cheque, e não pela categoria, quem passou a escolher o significado da marca foi o licenciado.
A Harley conseguiu voltar atrás porque o núcleo do negócio continuou inteiro: motor, concessionária e clube. Marca que aluga o nome sem esse núcleo não tem para onde recuar quando o cliente estranha o produto novo.
O erro custou reputação e tempo, não a empresa. O escudo seguiu valendo, e a lição ficou registrada na política de licenciamento, que hoje começa perguntando se o produto tem alguma coisa a ver com andar de moto.
"Qual foi a última categoria que levou o seu nome só porque o cheque era bom?"
|