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ED 020

O suco que sumiu da gôndola sem sair da prateleira

A PepsiCo estreou uma embalagem nova para a Tropicana em janeiro de 2009, viu a venda cair cerca de 20% e voltou ao rótulo antigo em fevereiro.

Caixa de suco de laranja Tropicana na prateleira refrigerada de um supermercado.

A laranja com o canudo espetado

▼
 

Na primeira semana de janeiro de 2009, o corredor de sucos dos supermercados americanos amanheceu com uma caixa diferente. O papelão da Tropicana Pure Premium tinha perdido a ilustração da laranja com um canudo espetado na casca e ganhado um copo de suco visto de cima, tipografia fina, nome deitado na vertical e um fundo branco liso.

A caixa nova era mais limpa, mais moderna e mais parecida com o que uma agência de design premiada entrega quando pedem para tirar o excesso. Ela também era mais parecida com a marca própria do supermercado, que ficava exatamente ao lado na mesma prateleira refrigerada.

Compradores começaram a relatar a mesma cena banal. Chegavam ao corredor, procuravam o desenho que conheciam há anos, não encontravam, concluíam que a loja estava sem estoque e levavam outra caixa para casa.

A troca fazia parte de um redesenho amplo da linha, contratado pela PepsiCo com uma agência de Nova York e orçado em dezenas de milhões de dólares entre criação, produção e campanha de lançamento. A ideia declarada era modernizar a identidade e valorizar o suco em vez da fruta.

O retorno chegou rápido e por escrito. Consumidores mandaram email, escreveram cartas, reclamaram em fóruns e redes sociais, e a queixa mais repetida não tratava de gosto nem de preço, tratava de não reconhecer o produto na loja.

Enquanto a discussão corria, o caixa registrava o resultado. Em menos de dois meses de embalagem nova, a venda da linha caiu cerca de 20% nos Estados Unidos, um tombo estimado em dezenas de milhões de dólares de receita perdida.

No fim de fevereiro de 2009, a companhia anunciou o recuo. A caixa antiga voltou a ser impressa, a laranja com o canudo reapareceu na gôndola e a versão nova ficou como um dos casos de redesenho mais estudados do varejo alimentar.

O detalhe que faz o caso valer estudo não é o recuo. É o tamanho da perda em tão pouco tempo, e para entender de onde ela veio é preciso medir primeiro o que aquela laranja desenhada valia como ativo.

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Marca de bem de consumo diário quase nunca é escolhida. Ela é encontrada, e o comprador que empurra o carrinho decide em poucos segundos, no meio de dezenas de caixas parecidas, sem ler rótulo nem comparar tabela nutricional.

A Tropicana tinha construído justamente essa vantagem de ser encontrada. O desenho da laranja perfurada por um canudo funcionava como um sinal de reconhecimento imediato, entendido de longe, sem palavra nenhuma, e associado à ideia de suco espremido direto da fruta.

O prêmio que essa vantagem construiu aparece em números:

I  O Prêmio de Marca

A laranja com o canudo espetado

•

Valor pago pela PepsiCo pela Tropicana em 1998: cerca de 3,3 bilhões de dólares

•

Custo estimado do redesenho e do lançamento em 2009: cerca de 35 milhões de dólares

•

Queda de venda no primeiro par de meses da embalagem nova: cerca de 20%

O primeiro componente do prêmio é a velocidade de identificação. Uma embalagem que o cliente acha em menos de dois segundos ganha da concorrente que exige leitura, porque a compra de rotina não tem paciência para leitura.

O segundo é o preço superior sustentado. O suco não feito de concentrado custava mais caro que a alternativa da loja, e o consumidor aceitava pagar a diferença porque a caixa comunicava fruta fresca antes de qualquer argumento racional.

O terceiro é a repetição sem esforço. Cliente que recompra por reconhecimento não precisa ser convencido de novo a cada visita, e a marca economiza em publicidade o que a concorrente precisa gastar para ser lembrada.

"Todo anúncio deve ser pensado como uma contribuição ao símbolo complexo que é a imagem da marca."

> David Ogilvy, Confissões de um Publicitário, 1963

Ogilvy escreveu a frase quando embalagem ainda era tratada como recipiente. O símbolo complexo de que ele fala é exatamente o acúmulo que a laranja com canudo tinha feito ao longo de décadas de gôndola, campanha e mesa de café da manhã.

Ativo distintivo tem uma propriedade incômoda para quem trabalha com design. Ele fica mais valioso quanto mais tempo passa idêntico, o que significa que a coisa mais valiosa da marca costuma ser também a mais cansativa aos olhos de quem cuida dela todo dia.

O time interno enxerga a mesma caixa em reunião desde sempre e a considera datada. O comprador enxerga a caixa por dois segundos a cada dez dias e a considera a sua marca de suco.

Essa diferença de exposição é o abismo onde os redesenhos caem. Quem convive com a identidade cansa dela muito antes do mercado, e a decisão de trocar nasce de um cansaço que o cliente não compartilha.

 
 

II  O Movimento

A troca que apagou o rosto

O movimento da PepsiCo, anunciado no começo de janeiro de 2009, foi substituir de uma vez toda a arquitetura visual da Tropicana Pure Premium: a laranja com o canudo saiu da frente da caixa, um copo de suco tomou o lugar, o nome da marca foi deitado na vertical em tipografia fina e o fundo virou branco.

A intenção declarada era colocar o produto em evidência. Em vez da fruta como promessa, o suco pronto como prova, com a tampa da embalagem ganhando o formato de meia laranja para preservar alguma lembrança do universo original.

A execução inverteu a hierarquia de leitura da caixa. O nome da marca encolheu e virou de lado, a descrição do produto ganhou destaque, e a diferença entre as variedades da linha passou a depender de detalhes pequenos, difíceis de distinguir a um metro de distância.

O corredor de sucos é o pior lugar do mundo para exigir leitura atenta. A prateleira é fria, o cliente está de passagem, as caixas concorrentes usam laranja e branco, e a nova Tropicana ficou visualmente próxima de qualquer suco genérico da loja.

A linha do tempo do caso tem quatro marcos:

1

Em 1947, um imigrante italiano funda na Flórida a empresa que se transforma na Tropicana, e em meados dos anos 1950 a companhia populariza o suco de laranja pasteurizado vendido pronto para beber.

2

Em 1998, a PepsiCo compra a marca por cerca de 3,3 bilhões de dólares e assume a liderança do segmento de suco não feito de concentrado nos Estados Unidos.

3

Em janeiro de 2009, a embalagem redesenhada chega às lojas americanas com campanha de lançamento, e a reclamação de consumidores começa nas primeiras semanas.

4

Em fevereiro de 2009, a companhia anuncia a volta da embalagem anterior, com a linha inteira retornando ao desenho antigo nos meses seguintes.

O executivo responsável pela operação na América do Norte reconheceu publicamente a origem do erro. A empresa tinha subestimado o vínculo afetivo dos compradores mais fiéis com a caixa antiga, justamente o grupo que sustentava o faturamento da linha.

O detalhe que separa esse caso de uma rejeição estética comum está em quem reclamou. Não foi o comprador ocasional, foi o cliente pesado, aquele que leva a mesma caixa toda semana e responde por uma fatia desproporcional da receita.

Comprador pesado é o mais sensível a mudança de embalagem porque ele compra no piloto automático. A memória visual dele é o atalho que dispensa decisão, e mexer no atalho obriga a pessoa a decidir de novo, com todas as concorrentes disponíveis na mesma prateleira.

A pesquisa que sustenta esse tipo de projeto costuma perguntar a coisa errada. Mostra a caixa nova isolada numa tela, pergunta se o design agrada, recebe elogio, e nunca reproduz a única condição que interessa, que é achar o produto no meio de vinte concorrentes em dois segundos.

Design isolado ganha da caixa antiga com facilidade. Design na gôndola disputa com o hábito, e hábito não avalia beleza, apenas confirma ou não confirma que aquilo ali é o produto de sempre.

A PepsiCo descobriu a diferença entre as duas provas com a caixa registradora aberta. O teste que faltava custou mais caro que o projeto inteiro de redesenho.

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III  O Erro de Marca

Quando a caixa nova vira produto desconhecido

O erro: trocar de uma vez o ativo visual mais reconhecido da marca, sem transição e sem teste em condição real de gôndola, tratando a embalagem como peça de estilo em vez de instrumento de localização.

O que custa: queda de cerca de 20% na venda em menos de dois meses, dezenas de milhões de dólares em receita perdida, o valor gasto no redesenho jogado fora e o custo adicional de reimprimir e redistribuir a caixa antiga.

O que fica: o suco continuou o mesmo suco, a fábrica continuou a mesma fábrica, e o que oscilou foi apenas a capacidade do cliente de encontrar o produto que ele já tinha decidido comprar antes de sair de casa.

O segundo erro é confundir modernizar com apagar. Toda identidade envelhece, e a atualização que funciona preserva os elementos que o mercado usa para reconhecer a marca enquanto renova o resto ao redor deles.

O terceiro é apostar tudo numa virada de chave nacional. Mudança de embalagem admite teste regional, lançamento por praça e leitura de venda antes da troca completa, e nenhuma dessas etapas protege o ego do projeto, todas protegem o caixa.

A régua prática cabe em três perguntas:

1

Qual é o elemento que faz um comprador distraído reconhecer o seu produto a um metro de distância, e ele sobrevive intacto ao redesenho proposto?

2

O teste de embalagem aconteceu na tela de uma apresentação ou numa prateleira cheia, com as concorrentes reais ao lado e um tempo de olhada de dois segundos?

3

A troca pode ser feita por praça, com leitura de venda antes de virar a chave no país inteiro?

Se a primeira resposta expõe um elemento que o novo projeto elimina, a marca está prestes a pagar para ficar invisível. Reconhecimento demora anos para se formar e desaparece na primeira semana de gôndola.

As empresas que atravessam bem essa fronteira renovam por camadas. Ajustam tipografia, limpam a informação secundária, melhoram material e ergonomia, e mantêm intocado o sinal que o cliente usa como endereço do produto.

O caso da Tropicana ficou como o experimento mais caro já feito sobre o valor de um desenho. A laranja com o canudo voltou para a caixa, e o mercado descobriu quanto ela valia justamente no intervalo em que ela não estava lá.

"O que na sua embalagem o cliente usa para te achar, e você tem coragem de apagar?"

 
 
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