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O movimento não foi redesenhar o óculos, foi cortar o balcão. A Luxottica retirou a Ray-Ban de farmácia e posto de gasolina, segurou a produção para limpar o canal e recolocou o mesmo modelo só onde controlava a vitrine.
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A Ray-Ban nasceu em 1937, dentro da Bausch & Lomb, como resposta a um problema de trabalho: pilotos do Exército americano voltavam de voo em altitude com dor de cabeça e enjoo por causa da luz.
O produto era instrumento antes de ser acessório. A lente verde cortava o brilho e o nome do modelo, Aviador, descrevia função e usuário na mesma palavra.
O Wayfarer chegou em 1952, com acetato moldado no lugar do metal, e virou o primeiro óculos escuro tratado como peça de moda. Nas décadas seguintes a marca envelheceu, e nos anos 80 o Wayfarer quase saiu de linha.
Em 1981 a Bausch & Lomb vendeu cerca de 18 mil unidades do modelo no ano inteiro, número de produto em fim de vida. A saída foi comprar presença em cinema: um contrato de colocação de produto levou a marca para dezenas de filmes e programas de TV.
Em 1983 Tom Cruise usou Wayfarer em Negócio Arriscado, e as vendas do modelo saltaram para cerca de 360 mil pares no ano. Em 1986 o Aviador voltou às telas em Top Gun, e a demanda subiu de novo.
A marca ficou quente, e a empresa fez o que quase toda empresa faz com marca quente: ampliou a distribuição. A Ray-Ban entrou em farmácia, loja de departamento e expositor de posto de gasolina.
O ganho aparece rápido na planilha. Cada ponto de venda novo entrega volume no trimestre seguinte, e a decisão parece óbvia para quem olha só a linha de receita.
O custo aparece devagar e em outro lugar. Para caber no balcão barato, o produto precisou ficar mais barato de fabricar, e a armação perdeu acabamento enquanto o preço descia para a faixa de 19 a 29 dólares.
No fim da década a Ray-Ban vendia muito e valia pouco. Era um nome conhecido pendurado ao lado de guarda-chuva de emergência, com etiqueta compatível com a do vizinho de expositor.
Em 1999 a Luxottica pagou 640 milhões de dólares pelo pacote de óculos de sol da Bausch & Lomb, que trazia Ray-Ban, Revo, Arnette e Killer Loop, e começou pela subtração.
Milhares de pontos de venda perderam o direito de vender a marca. A produção foi contida por um período, para escoar o estoque velho do canal, e a linha voltou com acetato melhor, lente de vidro e acabamento refeito.
O preço de relançamento ficou entre 75 e 150 dólares, várias vezes acima da etiqueta do expositor giratório, e a armação passou a aparecer em óptica e em loja de óculos de sol, boa parte delas da própria compradora.
A régua desse movimento está escrita. Em A Estratégia do Luxo, de 2009, Jean-Noël Kapferer e Vincent Bastien registram que a marca de preço alto não persegue distribuição, ela restringe, porque o ponto de venda faz parte do produto que o cliente compra.
O resto foi reconstrução de desejo com o canal sob controle. Em 2007 a marca relançou o Wayfarer em versão nova e se firmou como a marca de óculos de sol mais vendida do mundo.
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