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Pierre Cardin pôs a etiqueta em 800 produtos

O costureiro da alta-costura de Paris alugou a própria assinatura item por item e levou a etiqueta a 140 países.

Vitrine com gravata, frigideira, despertador e maço de cigarro, todos com a etiqueta Pierre Cardin.

Produtos licenciados Pierre Cardin, anos 1980

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Aos 36 anos, o costureiro Pierre Cardin pendurou uma coleção inteira de roupa pronta nas araras da Printemps, a loja de departamentos do Boulevard Haussmann, em Paris, no ano de 1959.

Paris tinha regra escrita para a moda de luxo. A Chambre Syndicale de la Haute Couture (câmara sindical da alta-costura, a entidade que decide quem pode usar o título de costureiro) exigia peça sob medida, prova no ateliê e cliente com hora marcada.

Vender vestido em cabide, separado por tamanho, para qualquer pessoa que entrasse na loja, quebrava o pacto. A câmara expulsou Cardin. O castigo durou pouco, e ele voltou à entidade logo depois.

O costureiro saiu do episódio com uma lição contrária à que os colegas queriam ensinar: a etiqueta rendia mais fora do ateliê do que dentro dele.

Cardin vinha de baixo. Nasceu Pietro Cardin em 1922, em San Biagio di Callalta, perto de Treviso, no norte da Itália, filho de agricultores que migraram para a França atrás de trabalho. Aos 14 anos, já cortava tecido como aprendiz de alfaiate em Saint-Étienne.

Em Paris, passou pela casa de Paquin, pelo ateliê de Elsa Schiaparelli e, em 1946, entrou na equipe de Christian Dior, onde ajudou a montar a coleção New Look (o visual de cintura fina e saia rodada que Dior lançou em 1947). Abriu a própria casa em 1950.

Os vestidos geométricos, o vestido-bolha de 1954 e os macacões da coleção Cosmocorps, de 1964, levaram a assinatura dele às revistas do mundo inteiro. A fama vinha da vanguarda, da roupa que parecia desenhada para a era espacial.

O dinheiro chegou por outra porta, bem menos fotogênica, assinada em papel timbrado e paga em porcentagem.

A primeira faixa abre o contrato que transformou a assinatura de um costureiro num produto vendido por item, de prateleira em prateleira.

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I  O Prêmio de Marca

Uma assinatura alugada por peça

Pierre Cardin quase não fabricava os produtos que levavam a etiqueta dele. Fabricantes de vários países pagavam pelo direito de costurar, estampar ou gravar a assinatura na própria mercadoria, e devolviam à maison uma porcentagem de cada venda.

O acordo tem nome técnico: licenciamento (o aluguel de uma marca a um fabricante terceiro, por prazo e por categoria de produto). O fabricante cuidava da fábrica, do estoque e da distribuição. Cardin entrava com a assinatura e, em muitos contratos, com o desenho.

A conta agradava aos dois lados. O fabricante cobrava mais por uma gravata comum só por carregar a palavra de Paris no forro, e a maison recebia sem manter galpão, operário nem caminhão.

Como funcionava o contrato

Cada licença seguia o mesmo roteiro, em três passos:

1. O fabricante escolhia a categoria: gravata, mala, panela, relógio, perfume.

2. A maison aprovava o produto e cedia a assinatura por um prazo fixo.

3. A cada unidade vendida, uma fatia do preço voltava a Paris como royalty (a taxa paga ao dono da marca).

Nos anos 1980, a etiqueta Pierre Cardin já assinava cerca de 800 produtos licenciados, espalhados por 140 países. A lista começava em terno e gravata, passava por despertador, caneta, toalha de banho e frigideira, e chegava ao maço de cigarro.

Quem aluga a assinatura recebe por item sem pagar a fábrica.

Um dos contratos mais curiosos saiu de Detroit. Em 1972, a American Motors lançou o Javelin Pierre Cardin, um cupê esportivo com o forro do teto e das portas coberto por listras diagonais em vermelho, ameixa, prata e branco sobre fundo preto, desenhadas pelo costureiro.

O carro vendeu pouco, cerca de 4 mil unidades em dois anos, mas cumpriu o papel de vitrine: a assinatura de um ateliê de Paris dentro de um carro americano de linha, vendido em concessionária comum.

O modelo de negócio sustentou a maison por décadas. Os desfiles de alta-costura davam prestígio, capa de revista e sessão de fotos; as licenças pagavam as contas e financiavam os próprios desfiles.

Cardin controlava a operação de perto. Recusou sócios e investidores, nunca abriu capital e seguiu como dono único da empresa por 70 anos, lendo os contratos de licença que chegavam ao escritório da Rue du Faubourg Saint-Honoré.

Gostava de dizer que conhecia cada produto da lista. Visitava fábricas, aprovava amostras e mantinha no escritório uma sala cheia de mercadorias com a etiqueta, de bolsa a garrafa, para mostrar aos visitantes até onde o império chegava.

 
 

II  O Movimento

De Tóquio a Pequim pela etiqueta

A expansão das licenças começou longe de Paris. Em 1957, Pierre Cardin viajou ao Japão, deu aulas de corte no Bunka Fashion College, em Tóquio, e virou uma espécie de embaixador da moda francesa no país.

O Japão abriu as portas cedo. Lojas de departamentos japonesas começaram a vender gravatas, lenços e camisas com a assinatura dele, feitas por fabricantes locais, e o mercado asiático virou a primeira grande fonte de royalty da maison.

Em 1979, Cardin entrou na China, recém-aberta pelas reformas econômicas de Deng Xiaoping. Levou modelos franceses para desfilar em Pequim, diante de uma plateia de funcionários do governo vestidos com o terno Mao (o paletó cinza de gola fechada, uniforme comum no país).

Foi um dos primeiros estilistas ocidentais a desfilar na China comunista. Nos anos seguintes, fábricas chinesas passaram a produzir roupas com a etiqueta dele, e a palavra Cardin virou sinônimo de produto estrangeiro de luxo para uma geração inteira de consumidores chineses.

O desfile de Pequim rendeu fotos que rodaram o mundo: modelos ocidentais de saia curta e chapéu largo andando diante de uma fileira de homens de cinza, sem aplauso, anotando o que viam em cadernos. Cardin voltou a Paris com pedidos de fábricas chinesas na mala.

A União Soviética veio em seguida. Na década de 1980, Cardin fechou acordos com fábricas soviéticas e desfilou em Moscou, num mercado onde quase nenhuma marca ocidental conseguia entrar.

O restaurante que virou etiqueta

Em 1981, Cardin comprou o Maxim's, o restaurante da Rue Royale frequentado desde a Belle Époque (o período de prosperidade de Paris antes da Primeira Guerra) pela alta sociedade parisiense.

Logo aplicou a mesma fórmula à casa nova. A palavra Maxim's foi parar em chocolate, vinho, champanhe, louça e hotel, e o restaurante ganhou filiais fora da França, a primeira delas em Pequim, em 1983.

A etiqueta viaja mais rápido quando o dono não precisa levar a fábrica junto.

Cada país novo trazia dezenas de contratos. A expansão acontecia sem loja própria, sem funcionário local e sem investimento da maison: bastava um fabricante disposto a pagar a porcentagem e a seguir as amostras aprovadas em Paris.

O alcance impressionava até os concorrentes. Em vários países da Ásia e do Leste Europeu, consumidores conheciam a palavra Cardin antes de ouvir falar de Dior, Chanel ou Saint Laurent, casas que vendiam pouco fora das próprias lojas.

Na própria França, a etiqueta circulava em supermercado, posto de gasolina e loja de presente. O costureiro que tinha sido expulso por vender roupa em cabide agora vendia a assinatura em embalagem de plástico.

 

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III  O Erro de Marca

A etiqueta gasta na prateleira

O erro: assinar qualquer produto que pagasse a taxa.

O que custa: a etiqueta de Paris perde o preço de luxo.

O que fica: assinatura em toda prateleira deixa de ser desejo.

Quanto mais produtos levavam a assinatura, menos ela dizia ao comprador. Uma gravata Pierre Cardin dividia a loja com cinzeiro, meia e panela da mesma etiqueta, e o freguês que pagava caro pelo terno via a mesma palavra no balcão de liquidação.

A imprensa de moda notou cedo. Nos anos 1990, a etiqueta aparecia em lojas populares e em bancas de camelô pelo mundo, longe das passarelas de Paris, e a maison perdia lugar entre as casas que vendiam exclusividade.

O problema tinha mecânica simples. O luxo depende de quem não consegue comprar. Quando qualquer pessoa leva para casa uma frigideira com a etiqueta, o terno sob medida perde o motivo de custar caro.

A tesoura da Gucci

A Gucci passou pelo mesmo desgaste nos anos 1980, com a marca espalhada em licenças de chaveiro, bolsa de lona e acessório barato. Nos anos 1990, o executivo Domenico De Sole e o estilista Tom Ford compraram de volta parte das licenças e tiraram a marca de produtos baratos.

A Gucci voltou às passarelas como casa de luxo e recuperou o preço alto. Cardin manteve as licenças e seguiu recebendo royalty de centenas de fabricantes.

Em 2011, aos 88 anos, o costureiro contou ao Wall Street Journal que venderia a empresa inteira por 1 bilhão de euros. Nenhum comprador aceitou o preço, e a maison continuou nas mãos dele.

O próprio Cardin rejeitava a crítica. Dizia que preferia vender a assinatura a milhões de pessoas a vestir só meia dúzia de clientes ricas, e tratava cada licença nova como prova de que o público ainda queria a etiqueta.

Pierre Cardin faleceu em 29 de dezembro de 2020, aos 98 anos, em Neuilly-sur-Seine, perto de Paris. Deixou uma empresa sem sócio e sem filhos, com contratos de licença ainda ativos em dezenas de países.

800 produtos em 140 países. Foi até onde a assinatura de um ateliê de alta-costura chegou nos anos 1980, alugada item por item (arquivo da maison Pierre Cardin).

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem assumiu o comando da maison depois que Pierre Cardin faleceu, em dezembro de 2020?

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que aconteceu em 1972 ligado à assinatura de Pierre Cardin?

ACompra do restaurante Maxim's, na Rue Royale, em Paris
BPrimeiro desfile de moda ocidental diante de funcionários do governo chinês, em Pequim
CLançamento do Javelin Pierre Cardin, cupê esportivo da American Motors com estofamento desenhado por ele
DFechamento de acordos de produção com fábricas soviéticas, em Moscou

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