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Pierre Cardin quase não fabricava os produtos que levavam a etiqueta dele. Fabricantes de vários países pagavam pelo direito de costurar, estampar ou gravar a assinatura na própria mercadoria, e devolviam à maison uma porcentagem de cada venda.
O acordo tem nome técnico: licenciamento (o aluguel de uma marca a um fabricante terceiro, por prazo e por categoria de produto). O fabricante cuidava da fábrica, do estoque e da distribuição. Cardin entrava com a assinatura e, em muitos contratos, com o desenho.
A conta agradava aos dois lados. O fabricante cobrava mais por uma gravata comum só por carregar a palavra de Paris no forro, e a maison recebia sem manter galpão, operário nem caminhão.
Como funcionava o contrato
Cada licença seguia o mesmo roteiro, em três passos:
1. O fabricante escolhia a categoria: gravata, mala, panela, relógio, perfume.
2. A maison aprovava o produto e cedia a assinatura por um prazo fixo.
3. A cada unidade vendida, uma fatia do preço voltava a Paris como royalty (a taxa paga ao dono da marca).
Nos anos 1980, a etiqueta Pierre Cardin já assinava cerca de 800 produtos licenciados, espalhados por 140 países. A lista começava em terno e gravata, passava por despertador, caneta, toalha de banho e frigideira, e chegava ao maço de cigarro.
Quem aluga a assinatura recebe por item sem pagar a fábrica.
Um dos contratos mais curiosos saiu de Detroit. Em 1972, a American Motors lançou o Javelin Pierre Cardin, um cupê esportivo com o forro do teto e das portas coberto por listras diagonais em vermelho, ameixa, prata e branco sobre fundo preto, desenhadas pelo costureiro.
O carro vendeu pouco, cerca de 4 mil unidades em dois anos, mas cumpriu o papel de vitrine: a assinatura de um ateliê de Paris dentro de um carro americano de linha, vendido em concessionária comum.
O modelo de negócio sustentou a maison por décadas. Os desfiles de alta-costura davam prestígio, capa de revista e sessão de fotos; as licenças pagavam as contas e financiavam os próprios desfiles.
Cardin controlava a operação de perto. Recusou sócios e investidores, nunca abriu capital e seguiu como dono único da empresa por 70 anos, lendo os contratos de licença que chegavam ao escritório da Rue du Faubourg Saint-Honoré.
Gostava de dizer que conhecia cada produto da lista. Visitava fábricas, aprovava amostras e mantinha no escritório uma sala cheia de mercadorias com a etiqueta, de bolsa a garrafa, para mostrar aos visitantes até onde o império chegava.
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