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Zara troca a verba de anúncio pelo aluguel da esquina
A Inditex declara cerca de 0,3% das vendas em publicidade e coloca o dinheiro na vitrine de rua mais cara de cada capital.
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A vitrine que substitui o anúncio
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Aos 39 anos, o comerciante Amancio Ortega abriu a primeira loja Zara na rua Juan Flórez, em A Coruña, em 1975, e não comprou um único anúncio para avisar ao mundo que ela existia.
A escolha virou política de companhia. Nos relatórios anuais da própria Inditex, dona da Zara, a linha de publicidade aparece em torno de 0,3% das vendas, enquanto as varejistas de moda de capital aberto declaram, nos seus relatórios anuais, algo entre 3% e 4% do faturamento em marketing.
A conta parece um erro de digitação até alguém procurar onde o dinheiro foi parar. A verba que não foi para televisão, revista e mídia paga foi para pedra, cimento e endereço: esquinas de rua comercial nas capitais, com metro quadrado entre os mais caros do planeta e vitrine de sete metros dando para a calçada.
A companhia trata a loja como veículo de mídia. A vitrine da Serrano, em Madri, da Oxford Street, em Londres, e da Quinta Avenida, em Nova York, entrega impressão diária a pedestre que não pediu para ver, sem intervalo comercial, sem bloqueador e sem leilão de impressões contra concorrente nenhum.
Existe uma pergunta de projeto escondida na planilha. Por que uma empresa que vende roupa para adolescente e para executivo, em 96 mercados, abriria mão do canal que todo mundo usa para lembrar o cliente de que existe? A resposta mora na natureza do produto. Zara troca a coleção da arara em semanas, e um anúncio produzido, aprovado e veiculado chega tarde para uma peça que já saiu de linha.
A vitrine muda na segunda de manhã. Ela sempre mostra o que está lá dentro naquele dia, no tamanho real, com o preço na etiqueta e a porta a três passos de distância.
O ponto de partida é o dinheiro. O prêmio que uma marca de moda cobra na etiqueta depende de onde a pessoa encontra aquela marca pela primeira vez.
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I O Prêmio de Marca
A vitrine que cobra aluguel de anúncio
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Uma jaqueta pendurada numa vitrine da Rua Oscar Freire vale mais na cabeça de quem passa do que a jaqueta idêntica pendurada numa loja de galeria, com o tecido saído do mesmo rolo.
O endereço faz parte do produto. Ele diz, sem uma frase escrita, em que faixa de preço aquela roupa joga, que tipo de gente entra ali e o quanto a empresa investiu para estar naquela quadra. A pessoa lê o aluguel na fachada e traduz em qualidade, mesmo sem saber que está fazendo a conta.
Em moda de giro rápido, o prêmio de marca vem da proximidade. Quem cruza a mesma esquina cinco vezes por semana acumula centenas de exposições por ano a uma marca que nunca comprou trinta segundos de televisão para falar com aquela pessoa.
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O aluguel de ponto nobre é uma compra de mídia disfarçada de despesa imobiliária: a empresa paga por atenção de pedestre, no mesmo lugar onde a compra pode acontecer em seguida.
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Existe uma vantagem contábil incômoda nessa escolha. Anúncio veiculado vira despesa e desaparece no fim do mês. Ponto de rua ocupado por vinte anos cria hábito de trajeto, e hábito de trajeto não se compra com aumento de verba no trimestre seguinte.
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"A loja é, ela mesma, um meio de comunicação."
> Paco Underhill, Why We Buy: The Science of Shopping, 1999"
derhill escreveu a frase observando compradores americanos com câmera e prancheta na mão. A tese dele é simples de enunciar e cara de executar: o espaço físico transmite mensagem o tempo inteiro, no piso, na largura do corredor, na altura da arara e na ordem em que as peças aparecem.
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A Zara leva a tese ao extremo dentro da própria vitrine. A montagem segue orientação vinda da sede, muda em ciclo curto, e trabalha com poucas peças por composição, para que o pedestre em movimento consiga registrar o conjunto em um ou dois segundos de olhar de passagem.
O custo dessa mídia aparece no lugar errado da demonstração de resultado. Ele entra como aluguel, condomínio, reforma de fachada e folha da equipe de loja, nunca como marketing. Um analista que compare apenas a linha de publicidade entre duas varejistas de moda vai concluir que uma delas quase não se comunica.
O prêmio, então, tem uma condição de existência pouco intuitiva: ele depende de a marca estar no caminho físico da pessoa antes de estar na lembrança dela. Quem controla a esquina controla a primeira impressão, e a primeira impressão é o que sustenta a etiqueta.
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II O Movimento
A verba que virou endereço
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A decisão da Inditex funciona como uma transferência de orçamento, com destino declarado. O dinheiro que a concorrência distribui entre agência, produção, veiculação e leilão de mídia digital, a companhia concentra em contratos de locação, compra de imóvel e obra de fachada nas ruas comerciais mais disputadas de cada país.
A compra mais visível dessa política aconteceu em Nova York. Em 2011, a Inditex adquiriu o espaço de varejo do número 666 da Quinta Avenida por 324 milhões de dólares, valor informado pela própria companhia no relatório anual daquele ano, e instalou ali uma loja Zara de frente para a avenida.
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Comprar o imóvel resolve dois problemas de uma vez: a empresa deixa de disputar renovação de contrato com quem paga mais e passa a ter no ativo um bem que se valoriza enquanto trabalha como painel publicitário.
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Do lado operacional, a política obriga um segundo compromisso. Uma vitrine que substitui campanha precisa de mercadoria nova com frequência, senão o painel mais caro da cidade fica mostrando a mesma composição por seis semanas.
O caminho dessa escolha dentro da companhia tem quatro degraus:
1. Definição de território. A equipe de expansão escolhe a rua, e não a cidade. O alvo é a quadra com maior fluxo de pedestre e vizinhança de marcas de preço superior ao seu.
2. Aquisição ou locação de longo prazo. A empresa entra com contrato longo ou compra o imóvel, aceitando um custo fixo alto em troca de previsibilidade de exposição por décadas.
3. Ciclo curto de mercadoria. A cadeia de produção precisa entregar peça nova em semanas, para que a vitrine tenha conteúdo diferente sempre que o mesmo pedestre passar de novo.
4. Padronização da montagem. A composição da vitrine sai de um time central, é fotografada, distribuída e reproduzida nas lojas, com controle de qualidade parecido com aprovação de anúncio.
O efeito prático é que a marca deixa de comprar frequência e passa a possuir frequência. O pedestre que faz o mesmo trajeto entrega repetição de graça, todo dia útil, durante o tempo em que aquele contrato durar.
Há uma leitura menos óbvia da política, e ela interessa a quem constrói marca pequena. O modelo não depende de ter Quinta Avenida no bolso, depende de escolher um ponto onde o seu público já passa por outro motivo e de dar a ele algo novo para ver com regularidade.
Do lado do risco, a companhia assumiu uma dependência clara. Se o fluxo de rua cair, por mudança de hábito, obra urbana ou migração do comércio para outra região, a mídia comprada some junto com o pedestre, e não existe verba de emergência para recolocar a marca na frente das pessoas em uma semana.
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